sistemas de bovinos de corte do futuro

A gestão nos sistemas de produção de bovinos de corte do futuro

Em junho de 2019 o Prof. Augusto Gameiro, do LAE/USP, apresentou palestra relacionada a gestão nos sistemas de bovinos de corte do futuro.

A palestra foi parte da programação da XIV Jornada NESPro e no IV Simpósio Internacional sobre Sistemas de Produção de Bovinos de Corte, evento realizado na Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Este texto abaixo traz um resumo da nossa apresentação.

Para falarmos da gestão nos sistemas de bovinos de corte do futuro, eu gostaria inicialmente de analisá-la no presente.

Apesar dos avanços significativos da ciência e da tecnologia, algumas atividades agropecuárias – e a produção de bovinos do corte me parece claramente uma delas – é caracterizada por uma enorme heterogeneidade tecnológica e gerencial das unidades produtivas.

E antes de falar de gestão nos sistemas de bovinos de corte do futuro, é importante saber mais dos dados de produtividade da pecuária de corte nacional ao longo dos últimos anos, de 2014 a 2019. Clique aqui e confira!

Apesar de já estarmos na chamada “Quarta Revolução Industrial” (também conhecida como “Indústria 4.0”), ainda temos inúmeras fazendas que talvez pudéssemos argumentar que sequer entraram na Primeira Revolução Industrial, portanto, muito menos na Segunda, na Terceira ou na Quarta. Quero dizer que ainda temos centenas (provavelmente, milhares) de fazendas com baixo ou baixíssimo uso de tecnologia moderna, incluindo aí, as técnicas de gestão.

Uma segunda observação introdutória que eu gostaria de fazer é que, em minha opinião, essa heterogeneidade não apenas deve ser compreendida, mas também respeitada por nós cientistas, técnicos e analistas. É de minha opinião que cada fazenda, cada pecuarista (e sua família) tem sua peculiaridade, uma realidade que não pode ser simplesmente menosprezada.

Entendo que é possível cada fazenda encontrar o seu “ponto ótimo” de trabalho, o seu nível tecnológico que se ajuste melhor à sua realidade edafoclimática, social, vocacional e financeira. Também não quero defender que “vale tudo na pecuária” e que está tudo bem como se encontra. Muito pelo contrário, é muito claro para mim que muito pode ser feito, mas devemos considerar uma visão holística das coisas para propormos algo realmente melhor aos produtores.

Melhorar a gestão e a tecnologia da produção, para competir nas regras do jogo do mercado competitivo, implica, necessariamente, duas coisas: trabalho e investimento. Milagres não existem no mundo dos negócios. Para se evoluir tecnicamente e/ou gerencialmente é necessário investir, seja recursos financeiros, seja dedicação do empresário; geralmente são necessários ambos. É fundamental que os pecuaristas estejam cientes disso.

Eu procurei sistematizar as dimensões que entendo serem as mais relevantes no que se refere à gestão dos sistemas de bovinos de corte do futuro, em cinco grandes frentes. Vamos lá…

  1. A identidade do empreendimento

Eis o ponto inicial de tudo quando se pensa em gestão de um empreendimento: qual sua identidade? Quais seus objetivos? Tudo vai depender desta decisão. O pecuarista está realmente disposto a ser um empresário inserido no ambiente competitivo de mercado? Vou supor que sim. Então ele precisa ter postura de empresário. Mudar postura não acontece da noite para o dia, mas é um processo que precisa acontecer caso essa tenha sido a opção.

Nas regras do jogo do mercado, o objetivo da empresa é o de buscar o lucro máximo. “Lucro máximo” é diferente de “ter lucro”. Em outras palavras, apenas ter lucro não basta, é necessário que seja o máximo possível. Isto é a base da chamada “Teoria de Firma” dentro da ciência da Economia.

Outro aspecto fundamental é separar o que é a “firma” e o que é o “proprietário”. Não são o mesmo ente econômico. O proprietário aloca seus recursos (terra, trabalho e capital) para a firma e esta deve remunerá-los de acordo com os seus custos de oportunidade nos respectivos mercados. É algo simples, mas que ainda gera muita confusão na agropecuária. Por exemplo, a remuneração do capital imobilizado na fazenda é um custo para a pecuária, mas também é a renda do pecuarista. Parece a mesma coisa, mas do ponto de vista lógico gerencial, são totalmente diferentes.

Todos esses aspectos não são apenas meras decisões vagas, mas podem, também, implicar em configurações jurídicas diferentes dos empreendimentos. Será que a fazenda deve ser uma “pessoa física” (PF) ou será que devemos transformá-la em uma “pessoa jurídica” (PJ)? Tradicionalmente, no Brasil, a primeira é esmagadoramente dominante. A configuração pela PF praticamente não exige uma contabilidade mais apurada. A pessoa jurídica é sempre mais complicada, mas pode trazer algumas vantagens, dentre elas, a de “nos obrigar” a ter uma boa contabilidade do empreendimento. Ela também ajuda na separação “firma” x “proprietário”. Nós temos desenvolvido pesquisas no sentido de tentar compreender o que é melhor para uma fazenda: continuar na PF ou se transformar em PJ. É uma análise que temos recomendado para todos os pecuaristas, especialmente os de médio e grande porte.

Em síntese, a decisão entre “pecuarista” e “empresário” vai trazer uma série de implicações práticas, legais e gerenciais, que devem ser muito bem analisadas.

  • Os indicadores de desempenho

“Navegar sem instrumentos” é um enorme problema em qualquer empreendimento. A navegação marítima e, consequentemente, o povoamento do planeta terra, deu um salto impressionante quando o homem desenvolveu os primeiros instrumentos de localização no mar. Não há como conduzirmos um empreendimento engajado com os preceitos econômicos sem ferramentas de avaliação de desempenho, ou seja, sem saber se estamos ou não no rumo certo.

E aqui cabe uma reflexão interessante, realizada por uma pesquisadora do próprio LAE/USP, Angética Caritás, que discute o tema ” por que o produtor não controla os custos de produção da fazenda?” Clique aqui e saiba mais do assunto!

No caso da pecuária, é imprescindível que se tenha informações detalhadas e atualizadas dos indicadores zootécnicos, de estoque e de custos de produção. Nós temos nos dedicado razoavelmente para o estudo dos custos da produção animal, porque entendemos que são informações essenciais para se gerenciar qualquer empreendimento engajado na busca pelo desempenho econômico satisfatório. O Farmnews reuniu alguns temas temas e materiais que visam introduzir o custo da fazenda aos menos familiarizados com o assunto. Clique aqui e confira!

Mas o fato é que não apenas os indicadores técnicos, econômicos e financeiros são relevantes. Outros começam a ganhar importância, como o de satisfação de clientes, de sustentabilidade etc. Os indicadores precedem de métodos de cálculo e estimativa, que por si só, já é um outro desafio. Enfim, os indicadores precisam ser adequadamente gerenciados para que possam guiar o empreendimento ao local desejado, hoje e no futuro.

  • O suporte dos sistemas ciber-físicos

Estamos na “Quarta Revolução Industrial”, estamos na era da tão falada “Indústria 4.0”. Tecnologia é o que não falta; está amplamente à disposição dos produtores. Resta saber: i) se são realmente úteis e indispensáveis; ii) qual sua relação benefício-custo; e iii) se saberemos lidar com ela. A tecnologia por si só não funciona se não houver pessoas capacitadas por trás.

A “Indústria 4.0” é caracterizada pelo que tem sido chamado de “sistemas ciber-físicos”. É um sistema composto por elementos computacionais colaborativos com o intuito de controlar entidades físicas. Já há várias soluções aplicadas à pecuária de corte. Vamos expor algumas delas na palestra. Não há dúvidas que, do ponto de vista técnico, tais soluções trazem ganhos evidentes. Deve-se ponderar, porém, se realmente são indispensáveis, se são eficientes do ponto de vista econômico-financeiro e se conseguirão ser efetivamente utilizadas nas condições existentes em cada empreendimento, especialmente, diante da mão de obra disponível.

  • A indissociabilidade entre produção animal e produção vegetal

Não vejo futuro da produção animal sem uma produção vegetal integrada, bem-feita e que receba igualmente a mesma atenção do pecuarista. Hoje voltou-se a falar bastante na “integração lavoura-pecuária”, ou ainda, na “integração lavoura-pecuária-floresta”. Trata-se de um “modismo” que nunca deveria ter saído da moda. A produção animal, historicamente, desde as primeiras domesticações, sempre esteve ligada à produção de alimentos para os animais (produção vegetal), mas a certa altura da história – especialmente com a famosa “Revolução Verde” –, parece que perdemos um pouco a noção dessa relação, especialmente quando se migrou para a danosa monocultura. Temos que resgatar a relação entre planta e animal, ou melhor ainda, entre solo-planta-animal. O sucesso dos empreendimentos vai passar pelo adequado gerenciamento desse trio.

Naturalmente a complexidade da gestão vai aumentar mais ainda, mas será um desafio a ser encarado por aqueles que conseguem ver a natureza como uma parceira, que pode ser devidamente explorada, mas que também precisa ser devidamente cuidada.

  • A imagem da fazenda e do setor

Não podemos ser insensíveis ao resto da sociedade, ao que ela pensa de nós e de nossas produções. Para muitas pessoas, a pecuária de corte é um grande vilão do país: é ela que mais desmata; são nossos bois os que mais emitem gases de efeito estufa; são nossas fazendas que mais empregam mão de obra escrava; nós não pagamos impostos; não geramos emprego por sermos extensivos; maltratamos nossos animais; e, ultimamente, somos aqueles associados à corrupção nas mais altas escalas do poder público (vide o caso traumático da “carne fraca” e do escândalo do maior grupo frigorífico brasileiro, nos últimos 3 anos). Nossa imagem está extremamente afetada aos olhos de grande parte da sociedade. É ruim ter que ler isso, é pior ainda ter que falar disso, mas é uma realidade que está dada e que, se quisermos revertê-la, teremos que fazer algo “para ontem”.

Não adianta negar isso tudo. Só existimos porque existem consumidores de carne bovina. Se nossos consumidores ou potenciais consumidores resolverem não mais consumir, perderemos mercado, perderemos renda, perderemos nosso negócio. Quando se pensa em marketing, a primeira coisa que vem na cabeça é o consumidor. E não pode ser diferente para o nosso setor.

E para finalizar o tema de gestão dos sistemas de bovinos de corte do futuro, precisamos melhorar a imagem de nossas fazendas, dos nossos manejos, da nossa produção, da nossa carne. Sem isso, nada do resto fará sentido no futuro.

Prof. Augusto Gameiro é Engenheiro Agrônomo, Bacharel em Ciências Contábeis, Mestre e Doutor em Economia Aplicada. É professor do Departamento de Nutrição e Produção Animal da Faculdade de Medicina Veterinária e Zootecnia da Universidade de São Paulo. Coordenador do Laboratório de Análises Socioeconômicas e Ciência Animal (LAE/FMVZ/USP). O LAE é instituição parceira do Portal Farmnews. E-mail: gameiro@usp.br.

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