segunda-feira, janeiro 12, 2026
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Acordo entre UE e Mercosul: o que o realmente muda para o agronegócio brasileiro?

Depois de mais de duas décadas de negociação, o acordo entre UE e Mercosul avançou definitivamente.

E, como costuma acontecer nesses momentos, o anúncio do acordo entre UE e Mercosul veio acompanhado de entusiasmo, expectativa e uma sensação difusa de alívio. Mas deixe-me começar esta coluna com uma pergunta simples e estratégica:  Se esse acordo entrasse em vigor amanhã, sua operação estaria pronta para ser auditada?

Não falo de discurso, nem de intenção, falo de dados, documentos, rastreabilidade, contratos e evidências. Porque é isso que, na prática, a Europa está pedindo.

Por que este acordo é diferente de todos os outros?

Este não é apenas mais um acordo comercial, ele é o maior já negociado pelo Mercosul e um dos maiores da história da União Europeia. Juntos, os dois blocos somam cerca de 718 milhões de pessoas e um PIB combinado superior a US$22 trilhões. Em um mundo cada vez mais fragmentado, protecionista e instável, o acordo também é um gesto político: uma sinalização em favor do comércio, do multilateralismo e da previsibilidade.

Mas nenhum acordo dessa magnitude vem sem contrapartidas. As negociações começaram em 1999, avançaram politicamente em 2019 e só foram concluídas de forma definitiva em dezembro de 2024, após uma renegociação delicada chamada “Pacote de Brasília”. O objetivo foi reequilibrar compromissos, especialmente em sustentabilidade, e preservar espaço para políticas públicas, indústria nacional e agricultura familiar.

O resultado veio de um acordo moderno, abrangente e estrategicamente relevante para o Brasil. A União Europeia já é o segundo maior parceiro comercial do país, com corrente de comércio próxima de US$100 bilhões, além de responder por quase metade do estoque de investimento estrangeiro direto no Brasil. Estamos falando de mercado, capital, tecnologia e integração produtiva.

Quando a tarifa deixa de ser o problema

Ainda assim, seria um erro grave olhar para esse acordo apenas como uma oportunidade de vender mais. O centro de gravidade do acordo não está na tarifa, mas sim na confiabilidade.

Sim, há ganhos objetivos de acesso ao mercado europeu: eliminação de tarifas sobre cerca de 95% dos bens, concessões importantes no agro, carnes, açúcar, etanol, milho, arroz, mel, frutas, suco de laranja e reconhecimento de produtos emblemáticos, como a cachaça e indicações geográficas brasileiras. E tudo isso importa.

Mas importa ainda mais o que vem junto: regras sanitárias, ambientais, mecanismos de salvaguarda, monitoramento, compromissos de sustentabilidade e dispositivos de reequilíbrio. O acordo protege o acesso negociado, inclusive contra mudanças internas da UE, mas também preserva o direito europeu de reagir a pressões políticas e surtos de importação. Traduzindo para o agro: o acesso não é automático, nem permanente.

A Europa compra alimentos, mas exporta regras

O agro brasileiro é altamente produtivo e competitivo, mas ainda produz melhor do que prova.

O acordo entre UE e Mercosul exige rastreabilidade, governança de dados, controle de cadeia, comprovação de origem, documentação sanitária robusta e aderência a padrões ambientais. Não como narrativa, mas como sistema.

As melhores práticas no pilar ambiental, social, econômico e de governança nesse contexto, não é discurso defensivo, é infraestrutura de mercado.

A boa notícia é que o acordo reconhece responsabilidades comuns, porém diferenciadas, preserva políticas públicas, prevê cooperação técnica e inclui um pacote europeu de apoio à implementação, com atenção especial a setores mais vulneráveis. A má notícia, se quisermos chamar assim é que não há mais espaço para improviso.

Produzimos bem, mas provamos pouco

E é aqui que vale ampliar o olhar, porque o Brasil não está sozinho nessa disputa.

A América do Norte entra com uma vantagem clara: cadeias altamente documentadas, rastreabilidade consolidada e forte capacidade de lobby regulatório. Ela perde em custo e, em alguns produtos, em competitividade climática, mas ganha em previsibilidade institucional.

Austrália e Nova Zelândia operam em outro modelo: volumes menores, padrões sanitários rigorosos, alinhamento regulatório com mercados desenvolvidos e uma narrativa ambiental consistente. São concorrentes diretos em proteínas premium.

A Ucrânia, apesar do contexto geopolítico extremo, tornou-se fornecedor estratégico de grãos para a Europa. O risco é alto, mas o espaço conquistado é real e politicamente sensível.

A África, especialmente países do Norte e do Leste africano, avança rapidamente em frutas, hortaliças e produtos frescos. Com acordos preferenciais, proximidade logística e custo competitivo, vem ocupando nichos que antes eram mais confortáveis para exportadores latino-americanos. E aqui há um detalhe geopolítico relevante: a China atua como grande investidora e fiadora dessas cadeias.

E mesmo dentro da América Latina, países fora do Mercosul, como Chile, Colômbia e Peru, já operam há anos com acordos robustos com a União Europeia, experiência regulatória e cadeias ajustadas. Eles não começam do zero.

Dito de forma simples: se o agro brasileiro não ocupar o espaço que o acordo oferece, alguém ocupará.

O fator que pode frear ou endurecer o acordo: o produtor rural europeu

Nos últimos anos, produtores rurais na França, Alemanha, Bélgica, Espanha e Itália têm ocupado estradas, pressionado governos e influenciado eleições. Não se trata de ruído passageiro, mas de força política organizada, com impacto direto no Parlamento Europeu e na forma como acordos comerciais são operados.

E temos que concordar que poucos grupos civis conseguem transformar tratores e maquinário agrícola em símbolos políticos tão eficazes quanto os agricultores europeus. Isso diz muito sobre sua capacidade de pressão.

Para esses agricultores, o acordo com o Mercosul é frequentemente percebido como ameaça. Em um contexto de custos elevados, exigências ambientais rigorosas e renda pressionada, a importação de alimentos vira um símbolo de concorrência “injusta”, ainda que tecnicamente não seja.

É nesse ambiente que o acordo será votado, ratificado e, principalmente, implementado.

Mesmo com o texto avançando, a pressão do campo europeu pode se traduzir em:

  • acionamento mais rápido de salvaguardas,
  • monitoramento mais rígido,
  • exigências regulatórias mais duras,
  • leitura política mais sensível sobre importações agrícolas.

Não é uma disputa moral, é uma disputa por renda, estabilidade e sobrevivência política no campo europeu.

Para o agro brasileiro, a mensagem é clara: não basta estar tecnicamente correto; é preciso estar politicamente preparado.

Se o Brasil não ocupar o espaço, alguém vai ocupar

O acordo UE–Mercosul não cria mercado, ele redistribui vantagem competitiva, quem entrega previsibilidade, rastreabilidade, estabilidade regulatória e narrativa sustentada por dados ganha espaço e quem entrega apenas volume, perde.

Diante desse cenário, a pergunta que o setor deveria estar se fazendo não é se o acordo é bom ou ruim, essa discussão já ficou para trás. A pergunta relevante agora é outra: o que precisa ser feito, e com que velocidade, para operar dentro desse novo jogo.

O ponto nevrálgico daqui para frente será a gestão da cadeia de fornecedores. Cadeias organizadas não se constroem de última hora, quem não sabe exatamente quem são seus fornecedores, quais dados possui sobre eles e como transformar essas informações em evidências auditáveis está, objetivamente, exposto a risco.

O acordo não pune quem produz mal, ele pune quem não consegue provar como produz. A Europa continuará comprando alimentos, mas comprará melhor. Produtos com diferenciação, atributos ambientais comprováveis, previsibilidade e narrativas sustentadas por dados tendem a acessar contratos mais longos e capturar prêmios. Volume sem lastro, por outro lado, tende a perder espaço.

Há ainda uma camada que não pode ser ignorada: a política. Salvaguardas, pressões internas, disputas narrativas e ruídos regulatórios farão parte do jogo. Daqui em diante, estratégia regulatória e reputacional passa a ser tão importante quanto produtividade.

Os impactos econômicos estimados do acordo são positivos, crescimento do PIB, aumento dos investimentos, expansão das exportações e redução de preços ao consumidor. Mas talvez o maior ganho seja outro: previsibilidade em um mundo cada vez mais imprevisível.

Agora, os próximos passos são institucionais: a assinatura dos instrumentos jurídicos, a aprovação no Parlamento Europeu, a tramitação nos congressos nacionais e, por fim, a entrada em vigor, inclusive com a possibilidade de vigência bilateral entre Brasil e União Europeia antes da ratificação completa do acordo pelo bloco. Parte inferior do formulário Nada disso será simples, vai haver resistência, ruído e disputa política. Mas, faz parte.

No agro o século XXI, quem não prova, não vende

E provar, hoje, não é apenas produzir bem — é organizar a cadeia, estruturar dados, antecipar riscos e entender o jogo político em que se está inserido. O acordo UE–Mercosul abriu a porta, mas só entra quem chega preparado.

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Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público. Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios. Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto. Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade. Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro. Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

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