sexta-feira, janeiro 9, 2026

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Geopolítica, Tecnologia e Agronegócio: o Preço das Más Escolhas nos Próximos 5 Anos

Por que o agronegócio brasileiro pode pagar a conta de decisões políticas que não controla?

Introdução — Quando o mundo muda e o Estado finge que nada mudou.

Há momentos na história em que o mundo muda devagar. E há

momentos — mais raros e mais perigosos — em que ele muda rápido demais para quem insiste em olhar pelo retrovisor. Estamos vivendo um desses momentos.

O agronegócio brasileiro sempre foi um setor acostumado à

adversidade. Produziu com infraestrutura precária, crédito caro, insegurança jurídica e uma digitalização claudicante. Ainda assim, venceu. Mas venceu porque o jogo, até pouco tempo atrás, ainda permitia erros estratégicos sem punição imediata.

Esse jogo acabou.

Nos próximos cinco anos, a geopolítica deixará de ser pano de fundo e passará a ser protagonista. E o Brasil, por decisões conscientes de seu governo, está se posicionando de forma perigosamente desalinhada dos países que dominam tecnologia, capital, inovação e acesso a mercados premium.

O novo mundo: não é globalização, é alinhamento.

O discurso da globalização morreu — mas ninguém teve a coragem de avisar oficialmente. O que existe hoje é um mundo organizado em

blocos geopolíticos, definidos por interesses econômicos, tecnológicos, militares e, sim, ideológicos.

Nesse cenário, países produtores de alimentos não são neutros. São estratégicos. Quem alimenta o mundo precisa escolher bem com quem anda, porque escolhas erradas custam mercado, tecnologia e tempo — e tempo, em economia, não se recupera.

O erro central do Brasil: alinhar-se a quem consome, não a quem desenvolve.

Ao optar por um alinhamento político e diplomático cada vez mais próximo de países como Rússia, China, Irã e Colômbia, o Brasil comete um erro estrutural:

confunde mercado comprador com polo de desenvolvimento tecnológico.

Esses países podem comprar commodities. Mas não lideram — com exceções pontuais — as fronteiras tecnológicas das quais o agronegócio brasileiro depende para evoluir.

Enquanto isso, o distanciamento progressivo de países como Estados Unidos, Israel, Argentina e Paraguai cobra um preço silencioso, porém cumulativo.

Consequência nº 1 — Atraso tecnológico disfarçado de soberania.

As principais tecnologias que sustentam o agro moderno vêm de países democráticos e alinhados ao Ocidente:

  • sensores e IoT agrícola
  • softwares de gestão e ERPs rurais
  • inteligência artificial aplicada à produção
  • biotecnologia, genética e edição gênica
  • satélites, imagens e conectividade de precisão

Ao se afastar desses polos, o Brasil não perde acesso imediato — perde prioridade, parcerias e velocidade de adoção. O resultado é um atraso tecnológico que não aparece no discurso oficial, mas surge na planilha de custos e na perda de competitividade.

Consequência nº 2 — ESG vira instrumento de exclusão comercial.

Países europeus e norte-americanos já deixaram claro:

quem não comprovar sustentabilidade, rastreabilidade e governança ficará fora.

Não se trata de virtude moral. Trata-se de estratégia econômica.

Sem alinhamento político, o Brasil será tratado como fornecedor de risco. E fornecedores de risco enfrentam:

  • barreiras técnicas
  • exigências ambientais mais duras
  • taxações indiretas
  • auditorias constantes

Tudo isso recai sobre o produtor, que passa a produzir mais documentos do que alimentos.

Consequência nº 3 — Dependência excessiva da China: o conforto que vira armadilha.

A China compra muito. Mas compra ditando regras.

Quando um país concentra mercado, perde poder de barganha. O Brasil corre o risco de transformar seu agro em refém comercial, aceitando preços, prazos e condições impostas — porque não terá alternativas.

Diversificação de mercado não é luxo. É sobrevivência estratégica.

Consequência nº 4 — Crédito mais caro e menos abundante.

Fundos internacionais não investem apenas em empresas. Investem em países.

E países mal posicionados geopoliticamente pagam mais caro pelo capital.

Isso significa:

  • juros maiores
  • menos linhas verdes
  • menos funding para inovação
  • mais dificuldade para startups e agtechs

O discurso ideológico custa caro quando chega na forma de planilha financeira.

Consequência nº 5 — O produtor como amortecedor do erro estatal.

Quando o Estado erra, ele não assume o prejuízo. Ele transfere. E quem sempre absorveu esse impacto foi o produtor rural.

Mais impostos, mais exigências, mais insegurança jurídica — tudo embalado em discursos grandiosos sobre protagonismo internacional que não se sustentam na prática.

O agro ainda é forte, mas não é invulnerável.

O agronegócio brasileiro continua sendo um dos mais eficientes do mundo. Mas eficiência sem estratégia geopolítica vira resistência passiva — e resistência passiva, cedo ou tarde, cede.

Os próximos cinco anos serão decisivos.

Ou o Brasil realinha sua política externa aos países que desenvolvem tecnologia, capital e inovação, ou continuará exportando volume enquanto importa dependência.

Países não têm amigos. Têm interesses.

E o agronegócio brasileiro não pode continuar pagando a conta de decisões que não ajudou a tomar.

Sidney Regi Junior – COO da Consultoria AgroSinal www.agrosinal.com.br

sidney@agrosinal.com.br

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