spot_img

Top 5 desta semana

Artigos relacionados

Crise da Raízen reacende debate sobre governança, etanol e risco no setor sucroenergético

- Advertisement -

A recuperação extrajudicial da Raízen não pode ser tratada apenas como mais uma turbulência corporativa de grande porte.

O que aconteceu com uma das maiores plataformas de açúcar, etanol, bioenergia e distribuição do país é maior do que um episódio financeiro. O caso acende um alerta sobre estrutura de capital, governança, exposição sistêmica e, principalmente, sobre a dificuldade do Brasil em transformar o etanol em prioridade estratégica de Estado.

Quando uma empresa dessa dimensão entra em reestruturação, o impacto não para na companhia, ele reverbera por toda a cadeia, afeta a confiança do mercado, reduz previsibilidade para o produtor e enfraquece uma agenda na qual o Brasil deveria liderar com folga. A crise da Raízen não expõe apenas um problema empresarial, ela expõe, sobretudo, a fragilidade de um modelo que muitas vezes cresce mais apoiado em ambição, capital intensivo e circunstâncias favoráveis do que em disciplina estrutural de longo prazo.

Governança não é discurso, é estrutura

Há um ponto delicado, mas inevitável, nessa discussão. Quando empresas constroem estratégias excessivamente apoiadas em ambiente favorável, acesso abundante a capital, expectativas de crescimento contínuo ou confiança de que sua relevância será suficiente para protegê-las, isso também se torna fator de risco. Não porque explique sozinho um caso como esse, mas porque pode enfraquecer a leitura real das vulnerabilidades do negócio. No caso Raízen, os fatores mais visíveis são conhecidos: dívida total elevada, perdas, incêndios, clima adverso, CAPEX elevado e dificuldade de liquidez. Mas o episódio também recoloca na mesa uma pergunta desconfortável: até que ponto grandes grupos brasileiros têm, de fato, construído resiliência proporcional ao tamanho de suas ambições?

Com uma dívida em torno de R$65,1 bilhões, a crise da Raízen deixa de ser apenas uma questão financeira e passa a ser um teste concreto de gestão, governança e capacidade de reação.

Isso porque em estruturas dessa dimensão, o problema não está apenas no tamanho do passivo, mas na capacidade da liderança e do conselho de antecipar riscos, conter excessos, corrigir rota e preservar a sustentabilidade do negócio antes que a pressão se torne incontornável. Quando isso falha, a escala deixa de ser proteção e passa a ampliar a vulnerabilidade.

E o que o agro perde com isso?

O agro perde mais do que uma manchete. Perde ritmo de investimento em uma cadeia que deveria operar como um dos grandes vetores de soberania energética do país. Perde densidade estratégica em uma agenda na qual o Brasil poderia liderar com muito mais consistência. Perde narrativa diante do investidor, justamente em um momento em que o mundo procura soluções reais de descarbonização. E perde tempo, talvez o ativo mais caro de todos em uma economia global que está redesenhando suas matrizes de energia, mobilidade e segurança de suprimento.

A Raízen, nesse sentido, simboliza algo muito maior do que uma empresa em dificuldade, ela materializa uma pergunta central para o país: como o Brasil pretende vender ao mundo sua vocação em energia renovável tropical se não consegue garantir solidez, previsibilidade e confiança em um de seus principais campeões setoriais?

 

O etanol nunca ocupou o lugar que merece

Mais do que expor a crise de uma empresa, o episódio reacende uma omissão histórica brasileira: o país jamais tratou o etanol com a seriedade. E certamente não foi por falta de produção, tecnologia, frota ou base agroindustrial. O Brasil já reúne escala, experiência e política pública para transformar o biocombustível em um ativo central de segurança energética. Mantém o RenovaBio, avançou com o E30 e tem na cana-de-açúcar um ativo histórico que ajudou a moldar sua própria formação econômica. O paradoxo é exatamente esse: o país possui a base, a vocação e a experiência, mas continua sem uma visão coerente e contínua para colocar o etanol no centro da sua estratégia energética, ambiental e industrial.

Na prática, o etanol segue sendo tratado muito mais como instrumento tático de mercado do que como projeto permanente de país. Sua competitividade oscila ao sabor do preço da gasolina, da tributação, do mix açúcar-etanol e do humor conjuntural. O discurso da transição energética existe, o que não existe, com a mesma consistência, é uma política de previsibilidade e centralidade compatível com o valor estratégico desse ativo. Talvez aí esteja o verdadeiro escândalo silencioso por trás do caso Raízen: não a existência de uma crise empresarial, mas o fato de o Brasil ainda não ter decidido o que quer fazer, de forma séria, com um dos poucos ativos energéticos em que possui vantagem comparativa real.

Etanol versus carro elétrico: um debate mal formulado

Tornou-se comum tratar o etanol como se ele estivesse condenado a perder espaço para a eletrificação em qualquer cenário, o que eu definitivamente não concordo. O Brasil abriu espaço para acelerar essa agenda, com avanço de montadoras chinesas, inundando o país com BYD e outras marcas e com um discurso fraco que simplifica demais essa discussão.

A descarbonização séria não se mede com slogan, mas com análise de cadeia de valor, emissões de ciclo de vida, custo de acesso, infraestrutura disponível e aderência à realidade brasileira. E, quando esse olhar fica mais completo, o etanol está longe de parecer um combustível do passado ou que pode ser uma segunda opção. Resumindo, se você acha que está salvando o planeta usando um carro elétrico, você está sendo enganado.

O Brasil não precisa escolher entre modernidade e vocação, mas precisa evitar o erro de importar narrativas prontas, como se sua transição energética precisasse copiar a Europa ou a China. Em um país com frota flex ampla, base agrícola robusta e experiência industrial consolidada em biocombustíveis, o etanol deveria ser tratado não como solução menor, mas como uma das colunas centrais de uma transição energética com identidade própria.

A lição que fica para o País

No fim, o caso Raízen também recoloca em evidência a responsabilidade das lideranças, dos controladores e do conselho na condução estratégica do negócio. Crises dessa magnitude raramente nascem de um único erro. Elas costumam refletir uma combinação de decisões mal calibradas, governança incapaz de antecipar vulnerabilidades, gestão de riscos insuficiente, expansão pressionada por capital intensivo e demora em reagir quando os sinais de deterioração já estavam sobre a mesa. Essa crise infelizmente teve um resultado de dívida elevada, perdas recorrentes, clima adverso e incêndios, em um contexto em que Shell e Cosan precisaram discutir aportes e alternativas de reestruturação.

Mais do que a crise de uma companhia, a recuperação extrajudicial da Raízen expõe uma falha de comando: quando decisões estratégicas não são suficientemente questionadas, quando o conselho não consegue impor o necessário freio de prudência e quando a governança perde a capacidade de corrigir a rota a tempo, a escala deixa de ser proteção e passa a ampliar o risco. Esse é o ponto central que o setor deveria observar com atenção: empresas estratégicas não fracassam apenas por fatores externos, mas também pela incapacidade de suas lideranças de antecipar, administrar e responder ao risco com disciplina.

Vale lembrar também que o Farmnews tem cada vez mais destacado para o aumento do risco geopolítico e as consequências para o agronegócio nacional. O risco geopolítico entra na conta do dia a dia, pelo frete, seguro, rotas, prazos, meios de pagamento e até disponibilidade de insumos e de navios ficam mais sensíveis e os custos oscilam mais rápido. Clique aqui e saiba mais!

Em 2025 começamos a enxergar melhor os desafios e as consequências cada vez maiores das disputas geopolíticas globais e em 2026, o que esperar? Clique aqui e confira!

O está em curso no Oriente Médio, por exemplo, vai muito além de uma tensão regional, estamos diante de mais um movimento dentro da grande disputa de poder entre Estados Unidos e China, uma rivalidade que hoje organiza boa parte da geopolítica global, das rotas energéticas às cadeias logísticas, da segurança marítima à influência diplomática. Clique aqui e saiba mais!

Conecte-se com a Forte Field Group: pelo Linkedin: https://www.linkedin.com/company/forte-field-group

Fale com a Bruna Forte pelo whatsapp: 11 98697-1673 

O Farmnews disponibiliza, diariamente, seus estudos de forma gratuita pelo whatsapp. Clique aqui!

 


Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público. Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios. Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto. Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade. Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro. Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

Artigos populares