O crime organizado no campo não é mais um problema de polícia local. É uma ameaça à competitividade do agronegócio brasileiro!
O crime vai onde está o dinheiro. E o agronegócio brasileiro representa, sozinho, entre 22% e 25% do PIB nacional, sem contar o efeito multiplicador sobre toda a cadeia industrial, logística e financeira à montante e à jusante da porteira!
Um estudo pioneiro do Insper Agro Global revela como facções criminosas transnacionais infiltraram a cadeia produtiva do agronegócio brasileiro, de insumos a commodities e porque essa é a nova fronteira de risco estratégico do setor.
Durante décadas, o produtor rural brasileiro conviveu com o crime como algo pontual e isolado, um furto de equipamento, um assalto na estrada. Esse tempo acabou. O crime organizado transnacional, o mesmo que movimenta toneladas de cocaína pelos portos do Atlântico Sul, que opera em 28 países e que se infiltrou em 14 setores da economia, chegou ao campo. E veio para ficar.
Foi com essa conclusão inquietante que especialistas em segurança, promotores do GAECO, jornalistas investigativos, pesquisadores da USP e lideranças do setor produtivo se reuniram no Insper, em São Paulo, para debater o estudo intitulado “O Crime Transnacional no Agro: a Infiltração do Crime Organizado como Nova Matriz de Risco do Agronegócio Brasileiro”. O evento, coordenado pelo Insper Agro Global, marca o início de uma série de estudos sobre as vulnerabilidades estratégicas do setor. O que foi apresentado é, ao mesmo tempo, uma fotografia precisa de um problema em expansão e um alerta urgente para quem ainda acredita que segurança no campo é assunto de delegacia local.
O agro como alvo: por que o crime organizado escolheu o campo
O raciocínio é simples: o crime vai onde está o dinheiro. E o agronegócio brasileiro representa, sozinho, entre 22% e 25% do PIB nacional, sem contar o efeito multiplicador sobre toda a cadeia industrial, logística e financeira à montante e à jusante da porteira. São R$ 2 trilhões em geração de valor, metade das exportações brasileiras, 20% dos empregos formais do país.
Porém, mais do que o tamanho, o que atrai o crime organizado para o campo é uma combinação específica de vulnerabilidades estruturais que o estudo do Insper detalha com precisão:
- Fronteiras porosas: o Brasil faz divisa com 10 países e a expansão do agronegócio para o oeste e noroeste (Rondônia, Acre, Mato Grosso do Sul) levou a produção para zonas onde a presença do Estado é escassa e os limites jurisdicionais são difusos.
- Fragmentação territorial da fiscalização: cada estado tem seu sistema de registros, sua polícia, sua parametrização de boletins de ocorrência. Nenhum comunica com o outro de forma estruturada.
- Cadeias produtivas longas e opacas: insumos passam por distribuidores, revendas, transportadoras e fronteiras antes de chegar ao produtor. Cada elo é uma oportunidade para o crime.
- Subnotificação endêmica: o próprio estudo adverte que se trabalha com ‘dado negado’: o criminoso não preenche formulário, não emite nota fiscal. Os números conhecidos são apenas a ponta do iceberg.
Os números que assustam e o que nunca saberemos
Mesmo trabalhando com estimativas conservadoras e fontes oficiais, os números compilados pelo estudo são reveladores. Segundo dados da CropLife Brasil e outras fontes setoriais, o impacto econômico dos ilícitos no agronegócio inclui:
- R$20 bilhões em defensivos agrícolas ilegais circulando anualmente no Brasil
- R$10 bilhões em sementes piratas — apenas na soja. Milho, algodão e feijão nem entram nessa conta.
- R$52 bilhões envolvidos em fraudes de combustíveis ligadas ao agronegócio (caso Carbono Oculto)
- R$2,2 bilhões em perdas documentadas por incêndios criminosos em 2024
- R$176 milhões de hectares com sobreposições de registros fundiários entre áreas públicas e privadas
Mas os pesquisadores são os primeiros a alertar: esses números estão provavelmente subestimados. O professor Leandro Piquet Carneiro, coordenador da Escola de Segurança Multidimensional da USP, destacou que não existe hoje metodologia consolidada e verificável para dimensionar o crime organizado no campo. “A gente precisa começar a construir uma cultura de estimativas metodologicamente robustas. Sem isso, continuamos navegando no escuro”, afirmou.
Da falsificação de defensivos agrícolas ao narcotráfico, como as facções operam no campo
A palestra do promotor de Justiça do GAECO Adriano Melega, que coordena investigações em Franca (SP) há dez anos, foi um dos momentos mais reveladores do evento. A região de Franca-Ribeirão Preto-São José do Rio Preto é hoje identificada como o maior polo de falsificação de defensivos do Brasil. Não por acaso: está no coração de uma das mais produtivas regiões agrícolas do mundo.
O que Melega descreveu não é mais artesanato criminoso, é indústria. As organizações que falsificam defensivos têm ao menos nove núcleos especializados e interdependentes: um núcleo gráfico (falsifica lacres, rótulos e galões), um núcleo contábil (cria empresas-fachada, emite notas fiscais falsas), núcleos de transporte, armazenagem e distribuição. Cada célula tem autonomia operacional, mas se alimenta das demais, exatamente o modelo de “crime como serviço” descrito na criminologia contemporânea.
Em uma das operações do GAECO, foram encontrados mais de 30.000 galões vazios armazenados em uma única chácara. Isso não é mais crime atomizado. É logística industrial a serviço da fraude.
O jornalista investigativo Marcelo Godói, do Estadão, contextualizou o fenômeno na trajetória do PCC (Primeiro Comando da Capital), que nasceu com seis detentos em 1993 e hoje conta com 40.000 integrantes em 28 países. A partir de 2007, o PCC passou a operar no atacado do narcotráfico transnacional, estabelecendo alianças com a Máfia dos Bálcãs e a ‘Ndrangheta italiana. Com isso, toneladas de cocaína passaram a sair pelos portos brasileiros (Santos, Paranaguá, Nordeste, Santa Catarina) em direção à Europa, África e Ásia.
O campo entrou nessa equação de três formas: como rota logística para o narcotráfico, como ambiente de lavagem de dinheiro (terras, gado e agronegócios legítimos sendo usados para legalizar recursos sujos) e como mercado de ilícitos específicos (defensivos falsos, sementes piratas, combustíveis adulterados).
A lavagem silenciosa. Quando o dinheiro sujo financia a sua concorrência
Um aspecto frequentemente subestimado pelo setor produtivo é o uso do agronegócio como lavanderia de capital. O mecanismo é simples, mas devastador para a concorrência leal: o crime organizado compra terras, gado ou participa de negócios agrícolas injetando capital ilícito. Com isso, consegue operar com margens que empresas legítimas jamais teriam, vendendo mais barato, comprando mais caro, tolerando prejuízos.
Alberto Fifer alertou para um risco geopolítico que o setor exportador brasileiro ainda não dimensionou: “Imagine que alguém do exterior, amanhã, diga que sua carga de soja está vinculada a dinheiro do narcotráfico e se recuse a receber. Pode acontecer. Isso seria devastador para a reputação do agro brasileiro no mercado global.”
O acordo Mercosul-União Europeia, recém-finalizado, exigirá dos exportadores brasileiros rastreabilidade crescente de toda a cadeia produtiva, isso inclui a origem do capital que financia fazendas. O crime organizado, nesses processos, não é apenas um problema interno, é um risco reputacional e comercial de primeira ordem.
Integração, a palavra que o sistema não consegue praticar
Talvez o ponto mais crítico de todo o debate tenha sido o diagnóstico estrutural do sistema de segurança brasileiro: ele é feito de ilhas. Ilhas de informação, ilhas de competência, ilhas de jurisdição. O jornalista Marcelo Godói descreveu como, ao cruzar manualmente dados de 20 operações policiais em São Paulo, encontrou dezenas de endereços e nomes repetidos, investigados por diferentes autoridades que simplesmente não sabiam que o vizinho estava investigando o mesmo suspeito. Um promotor de São Paulo pode não saber que há um inquérito sobre o mesmo traficante no Paraná ou que ele está sendo processado por tráfico em Turim, na Itália.
O professor Leandro Piquet Carneiro identificou esse ponto como o mais urgente: “O aspecto mais crítico, nesse momento, é o uso de inteligência tributária e financeira no processo de investigação. Essa batalha, infelizmente, nós perdemos com o PL Antifacção.” A lei aprovada pelo Congresso não incluiu o mecanismo de agência centralizada que permitiria cruzar dados sigilosos de investigações em todo o país.
Nilton Mendes, da CropLife Brasil, quantificou o custo prático dessa fragmentação: nem mesmo existe hoje um banco de dados nacional compilando os ilícitos ocorridos no agronegócio. Cada polícia, cada estado, cada órgão federal mantém seus registros em sistemas incompatíveis entre si.
O risco geopolítico, quando o crime vira ameaça à segurança nacional
A pergunta mais incômoda do evento veio do presidente da Sociedade Rural Brasileira, Sérgio Bortoloso: “A que distância estamos de uma intervenção estrangeira motivada pela presença do crime organizado no Brasil?”
A resposta dos especialistas foi equilibrada, mas não tranquilizadora. Marcelo Godói confirmou que agências americanas estão, neste momento, levantando dados sobre o PCC e o Comando Vermelho para avaliar sua classificação como organizações terroristas. Isso não é hipótese: é uma investigação em curso.
Alberto Fifer, com experiência em defesa e segurança nacional, contextualizou: “Os Estados Unidos já realizaram operações militares contra narco-organizações em águas internacionais na Venezuela, Colômbia e Equador. A possibilidade de uma ação similar contra embarcações ligadas ao PCC no Atlântico Sul não é ficção científica.”
Mais do que a ameaça militar direta, o risco real é de natureza regulatória e comercial: parceiros internacionais que financiam ou compram commodities brasileiras podem passar a exigir due diligence sobre a cadeia de custódia dos produtos, incluindo a verificação de que o capital que financia a produção não tem origem criminosa. O acordo com a União Europeia, nesse contexto, é tanto oportunidade quanto vetor de pressão. Fifer foi enfático: “Quando alguém resolver que a Amazônia é necessária para sua segurança nacional e a gente não tiver tomado as providências, vai ser tarde.”
O que o setor produtivo pode e deve fazer
Além do diagnóstico, o evento apontou caminhos concretos. A CropLife Brasil apresentou o modelo que vem construindo há cinco anos: compilar dados de apreensões, roubos e falsificações de toda a indústria associada, e disponibilizar essas informações de forma estruturada para as autoridades. É um modelo de inteligência privada alimentando a segurança pública, exatamente o que a Febraban faz para o sistema financeiro.
O promotor Adriano Melega demonstrou que a cooperação público-privada funciona: após estabelecer um protocolo com a indústria para retirada imediata de todo material apreendido em operações, o ciclo de recomposição rápida das organizações criminosas foi quebrado. Sem matéria-prima disponível no dia seguinte, o reinício da operação criminosa ficou muito mais caro.
Para os produtores, gestores e investidores do agronegócio, as recomendações que emergem do debate são:
- Fortalecer processos de due diligence na cadeia de fornecedores e compradores, não apenas do ponto de vista comercial, mas de compliance e origem de capital.
- Apoiar e participar de iniciativas setoriais de compartilhamento de informações, como as desenvolvidas pela CropLife e por outras entidades representativas.
- Pressionar por bancos de dados nacionais integrados sobre ilícitos no agro, uma demanda legítima e urgente que o setor pode colocar na agenda política.
- Monitorar ativamente a regulamentação do comércio eletrônico de insumos: grande parte dos produtos falsos e piratas já é vendida por marketplaces e redes sociais.
- Engajar-se no debate sobre a criação de uma agência nacional de inteligência criminal, capaz de integrar informações sigilosas de todas as autoridades competentes.
Lei e ordem como premissa estratégica
O que o evento do Insper Agro Global colocou em perspectiva é que o crime organizado no campo não é mais um problema de polícia local. É uma ameaça à competitividade do agronegócio brasileiro, à reputação internacional do Brasil como fornecedor confiável e, no limite, à soberania sobre o território produtivo nacional.
A boa notícia, se é que se pode chamá-la assim, é que estamos tomando consciência do problema antes que ele se torne incontrolável. A operação Carbono Oculto, a operação Pesticida, as investigações do GAECO em Franca: cada uma dessas ações revelou o tamanho real de um fenômeno que o produtor rural sentia na pele, mas que o sistema ainda não havia nomeado.
O passo seguinte exige o que raramente o Brasil consegue fazer de forma coordenada: que autoridades federais, estaduais e municipais, Ministério Público, Poder Judiciário, Receita Federal, setor privado e academia sentem juntos, com dados na mão e sem disputa de protagonismo, para construir uma resposta sistêmica. E que definitivamente o Brasil classifique todas essas facções criminosas em grupos terroristas. Isso não é uma ameaça a “soberania”, mas sim, promover a paz, prosperidade e proteção aos brasileiros de bem.
Como resumiu Marcelo Godói, com a síntese de quem passou 30 anos cobrindo crime organizado: “Dois princípios que deveriam ser óbvios e não são: lei e ordem. “Lei e ordem para todos, sem exceção, inclusive para quem está em posição de poder.” Para o agronegócio brasileiro, que alimenta o mundo, sustenta exportações e ancora o crescimento do país, essa não é uma questão ideológica. É uma questão de sobrevivência.
SOBRE O EVENTO:
O evento ‘Crime Transnacional no Agro’ foi realizado pelo Insper Agro Global, núcleo de estudos estratégicos criado em 2019 com foco no agronegócio global. O painel contou com Alberto Fifer (coordenador de Geopolítica, Estratégia e Segurança Internacional no Agronegócio), Adriano Melega (promotor de Justiça, GAECO-SP, núcleo Franca), Leandro Piquet Carneiro (professor do Instituto de Relações Internacionais da USP e coordenador da Escola de Segurança Multidimensional), Nilton Mendes (gerente do Comitê de Combate a Produtos Ilegais da CropLife Brasil) e moderação de Marcelo Godói (repórter especial do Estadão). O estudo completo está disponível no portal do Insper Agro Global.
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