sexta-feira, janeiro 23, 2026
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Frete, fertilizante e mercado: como a geoeconomia global está redesenhando o agro em 2026

O risco geopolítico entra na conta do dia a dia, pelo frete, seguro, rotas, prazos, meios de pagamento e até disponibilidade de insumos e de navios ficam mais sensíveis e os custos oscilam mais rápido.

Geopolítica e geoeconomia, em 2026, não são assunto distante: viraram custo de produção.

O que parece conversa de fóruns internacionais chega na porteira em forma de preço, prêmio, frete, seguro, crédito e fertilizante e, cada vez mais, em forma de regras para vender: rastreabilidade, comprovação de origem, exigências ambientais e sanidade.

O mundo também está mudando o jeito de “fazer comércio”. Aquele modelo mais tradicional do pós-guerra, com decisões em fóruns grandes e regras mais parecidas para todos, está perdendo espaço para um cenário em que grupos menores de países fecham acordos mais rápidos, muitas vezes “na base da troca”. Abre mercado aqui, endurece regra ali; reduz tarifa num produto, aumenta exigência no outro. O resultado é direto: quem quer vender passa a lidar com mais condições, mais documentação e maior risco de barreiras.

É nesse contexto que este artigo responde três perguntas bem práticas: o que mudou no mundo, como isso afeta o agro no dia a dia (custo, risco e acesso a mercado) e quais movimentos, do Brasil e de toda a cadeia produtiva, ajudam a gente a não ficar só cumprindo regra feita lá fora, mas também a ter voz e espaço para influenciar essas regras.

Davos 2026: “A Spirit of Dialogue” num mundo de tarifas, escassez e IA

O Fórum Econômico Mundial (World Economic Forum – WEF), é o encontro anual em Davos, na Suíça, que reúne chefes de Estado, ministros, presidentes de grandes empresas, bancos, organismos internacionais e especialistas para discutir os principais rumos da economia e da política global, e, principalmente, o que pode virar regra e tendência nos próximos anos.

E esse encontro que ocorreu nessa semana, sob o tema “A Spirit of Dialogue” (Um Espírito do Diálogo), o WEF colocou no centro da agenda os assuntos que estão reorganizando o comércio mundial: tarifas, segurança energética, IA, minerais críticos, água e cadeias estratégicas.

E o que isso muda no agro, na prática:

  • O comércio está mais “amarrado” à política. Menos livre mercado puro e mais decisão de governo: tarifa, cota, embargo sanitário e exigência ambiental viram ferramenta de negociação.
  • O risco geopolítico entra na conta do dia a dia. Frete, seguro, rotas, prazos, meios de pagamento e até disponibilidade de insumos e de navios ficam mais sensíveis e os custos oscilam mais rápido.
  • Não basta produzir bem: é preciso provar. A safra continua essencial, mas cada vez mais o acesso a mercado depende de padrões e processos: rastreabilidade, documentação, conformidade, governança da cadeia e reputação.

Quando o mundo passa a operar sob incerteza, quem tem processo e governança ganha mercado; quem tem só volume, perde margem.

ONU: a “falência hídrica” global e o impacto direto na agricultura

Na mesma semana, um relatório da ONU (UNU-INWEH) popularizou um termo duro: “Global Water Bankruptcy” (Falência Hídrica Global). A ideia é simples e preocupante: já estamos usando água como se fosse “cheque especial”, consumindo mais do que a natureza consegue repor, e parte desse dano pode ser difícil de reverter sem mudanças profundas na gestão.

Para o agro, o “canhão” aponta direto para três frentes bem práticas:

  • Água vira risco sistêmico (produção, irrigação, energia e conflito de uso).
  • Crédito e seguro tendem a precificar o “risco hídrico” com mais detalhe e rigor.
  • Água entra como métrica em auditorias e exigências de compradores internacionais.

Saímos do discurso do “apocalipse climático” e entramos no que realmente manda na produção: o clima varia, mas a água é a base. E é essa base, disponibilidade, armazenamento no solo, gestão e acesso, que define resiliência e, cada vez mais, poder econômico.

Quando poucos decidem por muitos: o Board of Peace e a nova regra do jogo

Em 2026, parte do poder global está testando “atalhos” para decidir fora das regras tradicionais. O exemplo mais comentado é o Board of Peace, proposto pelo presidente Donald Trump: um mecanismo que nasceu ligado à gestão do pós-conflito em Gaza e passou a ser apresentado com ambição maior, como uma espécie de “atalho” para mediar conflitos globais. A imprensa chegou a citar rascunhos com a ideia de assentos permanentes associados a contribuições na casa de US$1 bilhão, o que gerou desconforto diplomático e o temor de criar um organismo paralelo que concorra com o papel da ONU.

Para o agro, o ponto não é torcer a favor ou contra. O ponto é entender a consequência prática: quando o mundo passa a funcionar por “clubes”, as regras ficam mais fragmentadas. E regra fragmentada significa, no dia a dia:

  • mais exigências diferentes por mercado (Europa pede uma coisa, Ásia pede outra, e por aí vai);
  • mais auditorias e papelada;
  • mais risco de tarifa, embargo sanitário ou barreira “técnica”;
  • mais necessidade de processo profissional (dados, rastreabilidade, documentação e governança).

Em outras palavras: o custo de vender aumenta, e quem estiver mais organizado na cadeia sofre menos.

A reconfiguração comercial que chega na porteira

Tudo isso que parece ficar somente em grandes esferas de negociação, chega no campo de um jeito bem concreto: na hora de vender. O comprador muda a régua, o contrato ganha novas cláusulas, a trading pede mais documento, o frigorífico endurece a exigência, o banco faz mais perguntas, o seguro fica mais caro e o frete oscila por causa de rota e risco.

Em 2026, o comércio internacional está ficando mais “amarrado” a política, segurança e reputação. E, na prática, isso significa que o produtor vai sentir essa reconfiguração em três frentes:

  • Preço e margem (tarifas, prêmios, câmbio, custo de insumo e de logística);
  • Acesso a mercado (quem compra, o que exige e quais cadeias ficam “aptas”);
  • Prova e processo (rastreabilidade, documentação, auditoria e conformidade).

É importante abordarmos os principais movimentos que já estão batendo na porteira, e o que eles poderão exigir do agro brasileiro:

UE–Mercosul: janela grande, mas com briga política

Em 17 de janeiro de 2026, a Comissão Europeia anunciou a assinatura do pacote UE–Mercosul.
Só que o caminho é turbulento: existe pressão interna, principalmente do setor agrícola europeu, e ainda há disputa jurídica/política que pode atrasar cronograma.

Leitura para o agro brasileiro: oportunidade existe, mas vai ganhar quem tiver:

  • rastreabilidade e documentação 100%;
  • sanidade e previsibilidade;
  • capacidade de entregar com regularidade e sem ruído;
  • e uma narrativa consistente (clima, origem, conformidade).

EUDR: o relógio da rastreabilidade já começou

A lei antidesmatamento da União Europeia (EUDR) teve prazo ajustado, para grandes/médios produtores: 30/dez/2026 e micro/pequenos produtores: 30/jun/2027. E o recado é simples: não espere o prazo legal. Muitos compradores antecipam exigências para reduzir risco reputacional e jurídico.

China: África, comércio e influência e o alerta para máximo para o agro brasileiro

Enquanto o Ocidente aperta exigências ambientais e regulações, a China vem ampliando sua influência no Sul Global por outro caminho: acordos, financiamento, facilitação comercial e presença física em infraestrutura, especialmente na África. Em 2026, Pequim reforçou iniciativas com países africanos (incluindo programas de intercâmbio e sinalizações de ampliação de abertura comercial, como avanços de tarifa zero em linhas selecionadas para parceiros), buscando consolidar uma rede econômica e política mais densa no continente.

Por que isso interessa ao produtor brasileiro? Porque a África não é só “um mercado futuro”. Ela pode virar, ao mesmo tempo:

  • Mercado potencial para alimentos, genética, máquinas e tecnologia tropical brasileira;
  • Concorrente emergente em algumas cadeias (com apoio de capital, logística e projetos industriais);
  • Território-chave na disputa por minerais, energia e rotas — o que mexe com frete, seguro e custo global;
  • E, principalmente, um risco estratégico para o Brasil: ao aumentar compras preferenciais, investimentos e cadeias locais na África, a China pode diversificar fornecedores e reduzir dependência de origens tradicionais.

Se isso ganhar escala, o Brasil precisa estar em alerta para não perder espaço, ou até a posição de principal parceiro agrícola em determinadas commodities, em termos simples: quando a China fortalece a África, ela também amplia o leque de opções de compra. E num mundo mais “transacional”, quem compra com mais poder tende a escolher quem entrega preço + regularidade + prova + baixo risco.

Canadá–China: agricultura como moeda de troca

O “reset” comercial entre Canadá e China deixa uma lição bem prática: hoje, produto agrícola não é só alimento, é também ferramenta de negociação política. Em linhas gerais, os dois países mexeram em condições comerciais em áreas diferentes ao mesmo tempo: de um lado, o Canadá abriu espaço (com cota/regras) para a entrada de veículos elétricos chineses (EVs); do outro, a China reduziu barreiras e ajustou tarifas sobre itens agrícolas canadenses — com destaque para a canola, que é estratégica para os canadenses.

O recado para o agro é direto: o mercado pode mudar não porque a safra foi boa ou ruim, mas porque a política mudou. Em um mundo mais “transacional”, países com poder de compra usam o comércio para:

  • premiar parceiros (melhores condições, mais acesso, menos tarifa), ou
  • punir/pressionar (tarifas, embargos técnicos, exigências extras).

Por isso, para o Brasil, não basta produzir com eficiência: é preciso ter previsibilidade sanitária, logística confiável, diversificação de destinos e capacidade de provar conformidade, porque, quando o jogo vira “toma lá, dá cá”, quem compra escolhe quem dá menos risco e mais estabilidade.

Logística global: risco em rotas aumenta custo

Choques em seguros/fretes em áreas de tensão (como o Mar Negro) são transmitidos para o custo global e alteram a “conta” das origens. Isso mexe com prêmios, spreads e competitividade, mesmo que o conflito esteja longe.

Insumos e margem: fertilizante é geopolítica dentro da fazenda

Fertilizantes seguem como vulnerabilidade estratégica do Brasil e o mercado já reflete pressões de importação, crédito e competição externa. Onde em um mundo fragmentado: contratos, estoque e timing valem mais; diversificação de origens reduz risco; gestão de risco (câmbio, prazo, travas) deixou de ser “coisa de grande”.

Agricultura regenerativa: a resposta técnica para água, solo e mercado

Com a água no centro e a rastreabilidade apertando, a resiliência agronômica virou argumento comercial. Agricultura regenerativa deixa de ser “discurso” quando melhora o que mais interessa ao produtor: solo, água e estabilidade de produtividade. E no Brasil, o caminho mais direto e escalável passa por tecnologia já conhecida e comprovada:

  • ILPF (Integração Lavoura-Pecuária-Floresta), reconhecida como estratégia de intensificação sustentável e recuperação de áreas.

Além de produzir, isso ajuda a provar, e, em 2026, prova é moeda: solo coberto, água no perfil, menor exposição a extremos, mais previsibilidade.

Onde fica o Brasil: potência agroambiental ou tomador de regras?

O Brasil tem escala, tecnologia tropical e capacidade de oferta. Mas, num mundo de “clubes”, o pior lugar é fora da mesa onde se definem padrões. Se o país não transformar força produtiva em estratégia de processo (dados + compliance + regeneração + logística + diplomacia econômica), o risco é claro: vender volume com margem comprimida, absorver exigências sem influenciar as regras e perder espaço nos mercados que pagam melhor.

O mundo está ficando mais seletivo. E, nesse cenário, quem não ajuda a definir a régua acaba medido por ela — e o Brasil não pode, mais uma vez, perder a chance de ser referência e influenciar os padrões do jogo.

Em 2025 começamos a enxergar melhor os desafios e as consequências cada vez maiores das disputas geopolíticas globais e em 2026, o que esperar? Clique aqui e confira!

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Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público. Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios. Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto. Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade. Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro. Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

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