sábado, fevereiro 21, 2026
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O maior risco da agricultura brasileira não é a próxima safra, é o próximo ciclo

A agricultura brasileira está atravessando uma fase em que a safra é grande, mas o bolso está apertado: margem pressionada, custo financeiro pesado, preço oscilando e um mercado que muda de humor rápido.

Só que, enquanto a gente olha para o curto prazo, existe um movimento estratégico em curso no nosso principal destino de exportação, e ele pode redesenhar o mapa do agro brasileiro nos próximos 10 anos.

A China está trabalhando para reduzir a dependência externa de grãos e proteína, e a soja está no centro.

Um relatório do Goldman Sachs (dezembro/2025) trouxe uma tese incômoda: se uma combinação de tecnologias e ajustes de demanda avançar como o previsto, a China pode reduzir de forma profunda a necessidade de importar soja.

O gráfico associado ao estudo sugere que a autossuficiência chinesa, hoje na faixa de 13% a 17%, poderia subir para algo em torno de 61% em 2030 e perto de 94% em 2035. Mesmo que esses números sejam otimistas demais, a direção é o dado mais importante: a China está se preparando para comprar menos do mundo. E isso não é só tecnologia. É estratégia geopolítica.

O mundo já entrou na era da segurança estratégica: Energia, minerais críticos, semicondutores e agora comida e ração viraram “ativos de soberania”. Para a China, depender de importação significa se expor a risco de rota marítima, choque de preço, barganha do fornecedor e risco político. Em um mundo fragmentado, a pergunta deixa de ser “quem vende mais barato” e passa a ser “quem garante suprimento com menor risco”.

E quando um comprador do tamanho da China muda a forma de pensar, ele muda o mercado inteiro, mesmo que as metas não se cumpram 100%. A grande virada é que a China pode atacar o problema por três frentes ao mesmo tempo: aumentar oferta doméstica, elevar produtividade e reduzir a demanda por farelo nas rações.

Os vetores que podem mexer no jogo

De forma bastante otimista, o relatório aponta pilares que, combinados, poderiam acelerar a transformação da agricultura chinesa:

  • Expansão de área e produção, inclusive em regiões degradadas/salinizadas, com maior uso de irrigação;
  • Ganhos genéticos com adoção mais ampla de GMO e germoplasmas adaptados a estresse hídrico;
  • Maior eficiência nutricional com fertirrigação e liberação gradual de nutrientes;
  • Agricultura de precisão para tirar “mais por hectare”;
  • Melhor conversão proteica nas rações (menos proteína bruta, maior uso de aminoácidos sintéticos);
  • Gestão da demanda de ração (redução de perdas e mudanças no mix).

Pode haver exageros prováveis em prazo e escala, a adoção não é instantânea, e há gargalos relevantes de água, custo, infraestrutura e eficiência operacional. Mas alguns vetores são muito plausíveis, principalmente genética, manejo e substituição parcial do farelo nas rações, e isso, por si só, já é suficiente para alterar o equilíbrio do mercado.

Risco Brasil, o impacto não é linear

O risco não é “a China parar de comprar amanhã”, o risco é uma mudança estrutural que começa silenciosa e termina em reprecificação global. Se a China reduzir importações em 20%, 30% ou até metade até 2030, o efeito não é linear. Ele bate em três pontos críticos:

  • Preço: mais competição entre exportadores por um comprador menor — e o comprador ganha mais poder de barganha.
  • Prêmio e acesso: a China seleciona origem com base em logística, custo total, regularidade, qualidade e exigências de conformidade.
  • Ativos e capacidade: parte do Brasil investiu para crescer com o apetite chinês. Se a curva muda, muda o retorno sobre porto, armazenagem, esmagamento, frete, originação e crédito.

Esse risco da agricultura brasileira não se resolve só “na porteira”. Ele é sistêmico e exige resposta sistêmica.

 O que está sob controle do produtor e o que depende de decisão país?

Aqui é onde o debate precisa amadurecer. O produtor tem papel, mas não consegue, sozinho, abrir mercados, fechar acordos, construir ferrovias, destravar portos, alterar regras de combustível, criar linhas estruturantes de financiamento, aprovar biotecnologia ou negociar barreiras sanitárias. Por isso, as ações precisam caminhar em três níveis:

Porteira para dentro (produtor):

  • Gestão profissional de risco: custo, margem, caixa, disciplina de comercialização, seguro e hedge quando fizer sentido.
  • Eficiência e qualidade: produtividade sustentável, padronização, previsibilidade e melhoria de armazenagem na fazenda quando possível.
  • Conformidade e rastreabilidade: para manter acesso e prêmio em mercados cada vez mais regulados.

Cadeia e setor (cooperativas, tradings, indústrias, associações):

  • Diversificação comercial ativa: construir demanda fora da China com inteligência de mercado, contratos e presença.
  • Estratégia de valor: quando possível, ampliar processamento e oferta de produtos com mais valor agregado e diferenciação.
  • Padronização e “linguagem única” do setor: menos ruído, mais evidência e mais previsibilidade, o que vira vantagem competitiva em mercados exigentes.

O papel dos governantes na segurança econômica da agricultura brasileira

Se existe um lugar onde o Brasil pode perder o jogo antes mesmo de entrar em campo, é em Brasília. Porque o risco “China compra menos” não é apenas risco de mercado: é risco de Estado. Ele mexe com emprego, arrecadação, câmbio, investimento, infraestrutura e segurança econômica. Ainda assim, a política frequentemente trata o agro como pauta setorial, como se fosse apenas “assunto do produtor”, isso quando não nos apelidam como “fascistas” e nos colocam dentro de uma lata de conserva. Isso é assunto do país!

A é necessário criar uma agenda prioritária, estamos falando de sobrevivência competitiva agora, com temas

  • Diplomacia comercial e abertura de mercados: diversificar destinos não é desejo; é política de Estado. Sem acesso, sobra produto e cai preço. O Brasil precisa de estratégia ativa de comércio exterior, negociações com foco em agro redução real de barreiras, não só anúncio de mercados abertos.
  • Infraestrutura e logística como política de competitividade: frete e tempo de entrega viraram arma geopolítica. Ferrovia, porto, armazenagem e corredores de exportação precisam ser tratados como infraestrutura estratégica.
  • Demanda interna como âncora de mercado: biodiesel, etanol de milho e SAF não são “moda verde”; são instrumentos de segurança econômica. Criam demanda doméstica e reduzem dependência de um comprador único. Mas isso só funciona com regra clara, metas estáveis, previsibilidade e crédito.
  • Ciência, biotecnologia e inovação aplicada: o Brasil não pode assistir a China avançar em genética, manejo e eficiência e responder apenas com “mais área”. Pesquisa pública e privada, marcos regulatórios e incentivos precisam acelerar, e essa pauta deve ser blindada de disputa ideológica.
  • Crédito e seguro rural como infraestrutura invisível: sem seguro robusto, sem instrumentos de gestão de risco e sem crédito de longo prazo para armazenagem e eficiência, a resposta do produtor fica curta e defensiva. O país precisa parar de tratar crédito e seguro como “favor” e tratá-los como política estruturante.

Transição estratégica como pauta setorial a política de Estado

Se a China comprar menos e controlar mais os fluxos comerciais, o Brasil não pode seguir dependente de um fluxo “como se fosse garantido”. Isso exige coordenação nacional e execução consistente, Presidência da República, Congresso Nacional, governos estaduais e prefeituras de regiões produtoras, com participação ativa das entidades do agro na formulação, priorização e acompanhamento.

O País precisa tratar essa transição como política de Estado: com planejamento, governança, orçamento, metas e transparência. Porque, no fim, competitividade não se declara, a competitividade se entrega.

Em 2025 começamos a enxergar melhor os desafios e as consequências cada vez maiores das disputas geopolíticas globais na agricultura brasileira e em 2026, o que esperar? Clique aqui e confira!

E por falar na agricultura brasileira, vale lembrar que a crescente presença da China no nosso agronegócio vai muito além do comércio de commodities.

Sem gerar endividamento soberano direto, o país asiático vem construindo uma estratégia de condicionamento econômico baseada em mercado, crédito, logística e contratos de longo prazo. Esse modelo, conhecido como “diplomacia do endividamento”, não provoca rupturas imediatas, mas reduz gradualmente a margem de decisão do agro, especialmente em um cenário global marcado por disputas de poder e uso crescente da economia como instrumento de influência. Clique aqui e saiba mais!

E por falar no endividamento chinês no agronegócio brasileira, veja também que a compra de terras agrícolas no Brasil pela China vem acontecendo de modo silencioso e já acende sinal de alerta entre produtores, juristas e especialistas em soberania territorial. Clique aqui e saiba mais!

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Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público. Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios. Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto. Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade. Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro. Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

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