A maquila é uma das ferramentas mais relevantes do Paraguai para atrair produção, serviços, emprego formal e exportações com valor agregado.
Mas exige maturidade de quem vende o regime, de quem opera dentro dele e de quem decide investir.
O regime já superou a marca simbólica nas exportações. O desafio deixou de ser vender a alíquota de 1% — e passou a ser provar que a cadeia inteira fecha, do insumo ao contêiner.
Se a maquila virou dado macroeconômico e não mais curiosidade tributária, a pergunta que decide um investimento deixou de ser quanto se paga de imposto. A pergunta é: 1% de quê, em qual operação, com qual custo total?
A maquila cresceu, empregou mais gente e ganhou peso na balança comercial paraguaia — mas só entrega vantagem real para quem calcula o custo total da operação, não para quem compra a alíquota de 1% como se fosse a resposta completa.
O número que anda na frente da operação
Quando a maquila entra numa conversa com um empresário brasileiro, o número costuma aparecer antes da operação: 1%.
É um dado forte — cabe em uma lâmina de apresentação, permite comparação imediata com a carga tributária brasileira e cria a sensação de que a decisão já está tomada.
Essa facilidade também é uma armadilha. Reduzir um regime produtivo inteiro a um slogan tributário é confundir a etiqueta com o produto.
Pela Lei nº 7.547/2025, que redesenhou o regime, maquila é a produção de bens ou a prestação de serviços destinados à exportação, dentro de um programa previamente aprovado.
O enunciado é simples: uma empresa no exterior encomenda, a estrutura paraguaia executa, e o resultado sai do Paraguai para o mercado externo.
Simples no enunciado não é o mesmo que automático na prática. E, isoladamente, ser barato não é o mesmo que ser competitivo.
A pergunta decisiva não é se a maquila paga 1%. É 1% de quê, em qual operação e com qual custo total?
O exemplo que qualquer conselho entende
Imagine uma confecção brasileira de camisetas. Ela envia tecido, etiqueta e aviamento para o Paraguai.
Do outro lado da fronteira, a fábrica corta, costura, embala, organiza a produção e devolve as peças prontas — para o Brasil ou para qualquer outro mercado.
O mesmo raciocínio se aplica a autopeças, plásticos, alumínio, alimentos, componentes industriais e a uma lista crescente de serviços prestados ao exterior.
O Paraguai entra com mão de obra, energia, estrutura, gestão, controle de qualidade, logística e valor local; o cliente externo recebe o produto ou o serviço pronto.
Esse desenho altera a leitura do regime.
Maquila não é uma empresa comercial comum tentando pagar menos imposto — é uma operação com substância: processo produtivo, insumos controlados, documentação aduaneira, exportação comprovada, contrato e governança local.
O 1% que precisa ser explicado sem marketing
“A maquila paga 1%” é verdadeiro demais para ser repetido sem contexto.
Pela regra atual, o Tributo Único de Maquila incide sobre o valor agregado no território paraguaio ou sobre o valor da fatura de exportação — prevalece o que for maior.
Numa exportação de US$ 100 mil, com valor agregado de US$ 40 mil, no Paraguai, a base tributável é a fatura, não o valor agregado. O tributo, nesse exemplo, sai por US$ 1 mil. Parece um detalhe de advogado, mas é exatamente esse tipo de detalhe que altera a margem, o preço de transferência e a expectativa de retorno.
| Item | Valor no exemplo | Leitura |
| Fatura de exportação | US$ 100.000 | Base maior — é sobre ela que incide o tributo. |
| Valor agregado no Paraguai | US$ 40.000 | Base menor — não é a referência neste exemplo. |
| Tributo Único de Maquila (1%) | US$ 1.000 | Resultado aplicado sobre a maior base. |
Fonte: elaboração própria, com base na Lei nº 7.547/2025.
Programa aprovado: o que separa operação de promessa
Para operar como maquiladora, a empresa precisa de um Programa de Maquila aprovado. O programa descreve a produção ou o serviço, os insumos, a importação temporária, os mercados de destino, a mão de obra, as exportações previstas e a lógica econômica do projeto — e o CNIME participa da análise e da aprovação desse desenho.
O ponto é decisivo para quem vem do Brasil. Uma loja no Paraguai não vira maquiladora só porque quer pagar 1%.
Uma estrutura sem equipe, controle, documentação e exportação efetiva também não sustenta a tese. A essência do regime é executar no Paraguai para atender à demanda que nasce fora dele.
Origem Mercosul: a vantagem que não vem de graça
Outro erro comum é confundir maquila com a tarifa zero automática no Mercosul. Segundo o MIC, não há percentual mínimo geral obrigatório de valor agregado nacional para operar no regime. Mas, para emitir o certificado de origem e acessar os benefícios tarifários, a empresa precisa cumprir a regra de origem aplicável ao produto específico.
A diferença importa: produzir no Paraguai é uma coisa; provar que o produto final é originário, para fins comerciais, é outra. Entre as duas fica um território de engenharia industrial, documental e aduaneira que poucas empresas mapeiam antes de decidir.
O dado que tirou a maquila da conversa pequena
A discussão ficou mais séria porque o regime ganhou escala. Segundo o Banco Central do Paraguai, as exportações sob maquila somaram US$1,0123 bilhão entre janeiro e agosto de 2026 — alta de 30,2% em relação ao mesmo período de 2025. No mesmo relatório, as exportações totais do país somaram US$14,0253 bilhões, um crescimento de 24,7%.
Até julho, o acumulado da maquila era de US$858,7 milhões; em agosto, sozinho, acrescentou cerca de US$153,6 milhões. É ritmo, não apenas manchete.
No primeiro semestre, dados do MIC mostravam que o Mercosul absorvia 78% das exportações maquiladoras — o Brasil respondia por 62% e a Argentina por 15%. O regime empregava 36.052 pessoas, 1.923 a mais do que em 2025.
A maquila passou de vitrine tributária a um dado macroeconômico. Agora precisa provar que também adensa a indústria.
O que isso muda para empresas brasileiras
Na minha leitura, o empresário brasileiro deveria parar de tratar a maquila como pauta fiscal e começar a tratá-la como uma arquitetura operacional.
Qual etapa da cadeia pode ser executada no Paraguai com ganho real de competitividade? Qual parte do processo — montagem, embalagem, atendimento, processamento — poderia ser melhor organizada do outro lado da fronteira?
E qual parte simplesmente ficaria mais lenta, mais complexa ou mais cara?
O erro mais comum é comparar apenas alíquotas.
A decisão correta considera o custo total, o lead time, a regra de origem, o capital de giro, a governança, o preço de transferência, o risco cambial, o contrato intercompany e a capacidade real de gestão local. Quem ignora essas variáveis pode transformar uma economia tributária em um problema operacional dispendioso.
| Tema | Leitura correta | Erro comum |
| Natureza do regime | Produção de bens ou prestação de serviços para exportação, no âmbito de um programa aprovado. | Achar que qualquer empresa no Paraguai pode pagar 1%. |
| Tributo único | 1% sobre o valor agregado no Paraguai ou sobre a fatura de exportação — o que for maior. | Calcular sempre sobre a menor base. |
| Programa aprovado | Operação formal, com processo, insumos, exportação comprovada e lógica econômica. | Confundir a intenção de investir com a aprovação obtida. |
| Origem Mercosul | As regras de origem precisam ser avaliadas produto a produto. | Supor uma tarifa zero automática para qualquer item. |
| Competitividade | Depende do custo total, da produtividade, do câmbio, da logística e da governança. | Olhar só a alíquota. |
Fonte: elaboração própria.
O risco que o recorde esconde
A boa notícia carrega uma tensão. Quanto maior a maquila, maior a responsabilidade que o Paraguai assume em infraestrutura, aduana, energia, mão de obra, fiscalização, governança e estabilidade regulatória.
Há também o câmbio. Um guaraní mais forte ajuda a conter a inflação e a baratear as importações — mas pressiona quem recebe em dólar e tem custos relevantes em moeda local. Para a maquila, o câmbio não é detalhe de rodapé. É margem.
| Indicador | Número | Fonte |
| Exportações de maquila até agosto de 2026 | US$ 1,0123 bilhão | BCP |
| Crescimento interanual da maquila (acum. até agosto) | 30,2% | BCP |
| Exportações totais do Paraguai até agosto de 2026 | US$ 14,0253 bilhões | BCP |
| Crescimento das exportações totais (acum. até agosto) | 24,7% | BCP |
| Exportações de maquila até julho de 2026 | US$ 858,7 milhões | BCP |
| Participação do Mercosul como destino (1º semestre) | 78% | MIC |
| Brasil como destino da maquila (1º semestre) | 62% | MIC |
| Argentina como destino da maquila (1º semestre) | 15% | MIC |
| Empregos nas maquiladoras (1º semestre) | 36.052 pessoas | MIC |
Fonte: Banco Central del Paraguay (BCP) e Ministerio de Industria y Comercio (MIC), 2026.
O Paraguai precisa evitar a armadilha de vender a vantagem antes de fortalecer a base. Se a maquila ficar restrita à arbitragem de custo, fica mais vulnerável à concorrência de outros países e a qualquer mudança nas regras de comércio. Se avançar em submaquila, fornecedores locais, treinamento, controle de qualidade e conteúdo técnico, constrói algo mais difícil de copiar.
A leitura que fica
A maquila é uma das ferramentas mais relevantes do Paraguai para atrair produção, serviços, emprego formal e exportações com valor agregado. Mas exige maturidade de quem vende o regime, de quem opera dentro dele e de quem decide investir.
Para o Brasil, o incômodo é evidente. Enquanto empresas brasileiras discutem reforma tributária, custo financeiro, burocracia e previsibilidade, o Paraguai oferece um regime tributário simples no desenho, já exportador em termos de números e cada vez mais relevante na balança comercial.
Isso não resolve todos os problemas de uma operação industrial. Mas resolve alguns dos fatores que mais pesam na decisão sobre onde produzir.
Por isso, a maquila não deve ser lida como mágica fiscal nem como propaganda de país barato. Deve ser lida como uma plataforma que só entrega valor quando imposto, operação, origem, câmbio, logística, produtividade e governança cabem na mesma conta.
O Paraguai pode produzir sob encomenda para o Brasil e para o mundo. A empresa que quiser usar essa plataforma precisa responder a uma pergunta mais dura do que “quanto pago de imposto?”: qual parte da sua cadeia poderia ser executada no Paraguai sem perder controle, margem e qualidade?
Se a sua empresa está avaliando o Paraguai, não comece pela abertura da empresa. Comece pela tese. Porque o maior risco de expandir para o Paraguai não é entrar. É entrar sem estratégia.
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