Fim da escala 6×1, NR-01 punitiva e reforma tributária convergiram sobre o setor que mais cresce no País. O Congresso vendeu três populismos com a mesma embalagem — e o consumidor brasileiro vai pagar a fatura no prato.
Empreender e produzir no Brasil de hoje, está deixando de ser uma atividade economicamente viável. Não é alarmismo. É aritmética pura.
Três peças regulatórias caíram sobre o setor em janela de doze meses: a PEC 221/2019, que extingue a escala 6×1; a NR-01 atualizada, em fiscalização punitiva desde 26 de maio, exigindo gestão de riscos psicossociais com metodologia de escritório; e a nebulosa reforma tributária da LC 214/2025, cujos regulamentos saíram em abril totalizando 617 artigos só na Resolução CGIBS 6/2026.
E no Palácio do Congresso Nacional, a chamada “casa do povo”, não houve nenhuma objeção para que se pudesse destacar no caso do agro, as especificidades e os impactos dessa trilogia que mais parece um filme de terror.
O Brasil está prestes a se tornar o único país do mundo que sabotou a própria competitividade alimentar por populismo legislativo.
A narrativa oficial é tão emocional, quanto desonesta. Vende-se ao eleitor que reduzir jornada, proteger saúde mental e simplificar tributo é progresso. Quem discorda é colocado no banco dos réus do retrocesso. O que está escondido é o seguinte: cada uma das três medidas foi escrita por gabinetes em Brasília sem consulta técnica vinculante ao setor que vai pagar a conta.
A PEC 221 saiu da Secom do Planalto antes de sair da economia. A NR-01 copiou a ISO 45003:2021, desenhada para call center europeu, e aplicou ao trabalhador de frigorífico no oeste do Paraná. A reforma tributária empilhou regimes diferenciados, créditos presumidos e diferimentos sem que ninguém tenha modelado o caixa de uma pecuária de 36 meses. Isso não é progresso. É populismo regulatório com endereço eleitoral.
O decreto contra a fisiologia
O agro não opera em 6×1, opera em 7×0. Lembro-me de amigos da turma da faculdade que não conseguiam ficar até o final da aula noturna, porque tinham que descansar para acordar às 4 horas da manhã.
Vaca leiteira não tira folga no domingo, frango de corte não respeita feriado. Janela de plantio de soja no Mato Grosso, definida pela chuva, dura cerca de quarenta dias por ano. Usina de cana opera 24 horas em três turnos entre abril e novembro porque é nesse período que a planta acumula sacarose.
Quando o legislador determina o fim da escala 6×1 desaparece em 60 dias após a promulgação — sem regime de transição setorial — ele não está protegendo trabalhador. Está decretando que o agro produza menos, contrate em vínculo mais frágil, ou ambos.
O próprio Ministério do Trabalho estima elevação de custo entre 7,8% e 8,6% em agropecuária, quase o dobro da média nacional de 4,7%. A Frente Parlamentar Agropecuária projeta perda de até 600 mil postos formais e impacto de R$88 bilhões sobre o PIB. Não é chantagem patronal, é o preço de uma canetada que não leu um único relatório.
Lembremos: o agro fechou 2025 com saldo líquido de 41.870 vagas formais, alta de 269% sobre 2024, e respondeu por cerca de um terço do crescimento do PIB. O setor que sustenta a economia é o que será mais punido. Pior: o Brasil já tem o Estatuto do Trabalhador Rural, Lei 5.889 de 1973, com intervalos por usos e costumes regionais e regimes específicos de safra.
A PEC 221 atropela esse arcabouço sem substituí-lo e promete tratar setores específicos por lei complementar futura. Em tradução prática: legisle agora, conserte depois.
Medir burnout em quem trabalha a céu aberto
A NR-01 atualizada está em vigor desde 26 de maio, com fiscalização punitiva ativa. Inclui obrigatoriamente os fatores de risco psicossociais no PGR (Programa de Gerenciamento de Riscos). O conteúdo é importante, saúde mental do trabalhador é causa séria, o problema é o método.
A metodologia exigida pelo MTE (Ministério do Trabalho e Emprego), com treze fatores e documentação rastreável, foi desenhada para empresa de escritório com RH estruturado.
O Sistema Faep registra que 80% das pequenas e médias propriedades rurais não concluíram a implantação, e o Ministério Público do Trabalho não está vinculado ao cronograma educativo da Inspeção, para o MPT, risco psicossocial já era fundamento de ação civil pública, agora tem norma específica para invocar.
Resultado prático: produtor sem avaliação psicossocial documentada, plano de ação e evidência de comunicação ao trabalhador estará exposto a três frentes simultâneas: autuação administrativa, dano moral coletivo via MPT e ação individual por adoecimento ocupacional. O órgão está aplicando ao campo uma norma de escritório urbano e esperando que dê certo.
Quer ver o setor deixar de ter estafa mental ou burnout? Baixem os juros, acabem com órgãos aparelhados que confiscam gado ou expulsam o produtor que gira a economia e emprega, para criar Unidades de Conservação, garantam segurança jurídica ao campo, prendam os terroristas do MST que invadem propriedades privadas, revisem as dívidas acumuladas de produtores impactados em quebra de safra ou eventos climáticos.
A “deforma tributária” que esquece o ciclo biológico
Eis o golpe mais sofisticado dessa tríade infernal. Venderam pra todo mundo que a reforma tributária iria simplificar a vida, pro agro, é o avesso disso.
Na prática, trocaram cinco impostos que a gente já conhecia de cor (PIS, Cofins, ICMS, ISS e IPI) por dois novos, IBS e CBS, embrulhados em mais de 600 artigos de regulamento que ninguém no campo tem tempo de ler. Mas o problema nem é a quantidade de imposto. É a hora de pagar. Antes, boa parte do que você comprava vinha com ICMS adiado e isenção, o imposto do insumo só era acertado lá na frente, quando você vendia a produção. Fazia sentido.
Agora virou o seguinte: pra quem fatura mais de R$3,6 milhões no ano, o insumo já chega com imposto colado na nota, na hora da compra. Mesmo com o desconto de 60% que o agro arrancou na marra, ainda sobra uns 11,4% em cima de cada saco de adubo, cada litro de defensivo, cada peça de máquina.
Traduzindo em dinheiro de verdade: pra cada R$ 100 mil que você gasta de insumo, R$ 11,4 mil já saem do seu bolso e vão pro governo antes de você colher ou vender um grão que seja.
E é aqui que o pessoal de Brasília fez de conta que não viu, a conta do tempo. Pega uma pecuária de ciclo completo: do dia que você compra o bezerro até o dia que vende o boi gordo, passam três anos. E nesses três anos você não para de gastar, vacina, sal, remédio, arame. Todo imposto que você paga nessas compras vira um tal de “crédito”, um dinheiro que o governo diz que te devolve.
Só que ele só devolve depois que você vende o boi. Quer dizer: por três anos o seu dinheiro fica preso lá, parado, enquanto o boi tá engordando no pasto. E olha que a lei promete devolver em 30 a 180 dias, mas é só cair numa fiscalização que esse prazo estica mais 360 dias, fácil. Na soja, no adubo comprado em dólar, é a mesma novela: você paga hoje e só vê a cor do dinheiro na colheita, lá na frente.
Sabe pra quem essa regra foi feita? Pra mercadinho de cidade, que compra e vende numa semana e recupera o imposto rapidinho. Aí vêm e jogam essa mesma regra em cima de quem leva três anos pra fechar um ciclo. Isso não é simplificação, meu amigo. É pegar o capital de giro do produtor e emprestar de graça pro governo. Calote do tempo, com cara de modernização.
Antes da porteira até o prato do brasileiro
Há um efeito cascata que o Congresso prefere ignorar porque não cabe em propaganda. Antes da porteira: fabricantes de fertilizantes, defensivos, sementes e máquinas repassam custo de compliance e encarecimento trabalhista ao produtor.
Insumo no Brasil já é dolarizado em mais de 80%, agora ganha camada extra de tributo embutido. Dentro da porteira: o produtor, espremido entre custo de insumo subindo e preço de commodity ditado por Chicago, perde margem ou abandona área.
A safra 2026/27 será o primeiro teste real, e a CNN Brasil já reportou pressão de caixa em cadeias de fertilizantes na fase de testes. Depois da porteira: tradings como COFCO, Cargill, Bunge e ADM repassam custo Brasil ao prêmio de exportação; frigoríficos automatizam para neutralizar trabalho a mais.
E no fim da fila está o consumidor brasileiro pagando arroz, carne, leite e ovo mais caros, num país onde inflação de alimentos já é o principal componente da pressão sobre a renda familiar baixa. O populismo legislativo que se vende como proteção do trabalhador acaba sendo regressivo no bolso de quem ele diz defender.
A irresponsabilidade dos que deveriam defender os interesses do povo
Há uma irresponsabilidade institucional no Congresso, pois muitos parlamentares votaram nas três medidas sem ter lido ou estudado. Não por desinteresse, mas porque virou moda (ou Motta), votações rápidas, bombas, no final do expediente.
O cálculo eleitoral é mais simples que o cálculo de impacto: PEC contra escala 6×1 é vitrine de campanha. Os extremistas que andam com camisetas de Karl Marx ou Che Guevara, ainda dizem que é o fim da escravidão do trabalhador brasileiro. NR-01 vende como cuidado com saúde mental. Reforma tributária vende como simplificação. Os três rótulos cabem em horário eleitoral gratuito.
O que não cabe são os 617 artigos, os 36 meses do ciclo da pecuária, os 40 dias de janela de plantio. Em maio de 2026, o país que terminou 2025 com safra recorde e respondendo por um terço do crescimento do PIB, está prestes a ser “punido” com essas novas três regras que tornam essa produção mais cara, mais incerta e mais judicializada.
Nenhum país se tornou potência alimentar legislando contra a fisiologia da própria produção, grandes exportadores líquidos de alimento têm regimes trabalhistas, sanitários e tributários adaptados ao ciclo biológico das cadeias.
O Brasil está fazendo o caminho inverso, aplicando ao seu único setor de competitividade global um manual pensado para call center, escritório e varejo urbano. O agro está ao lado do consumidor que vai descobrir, no caixa do supermercado em 2027, que três populismos consecutivos custaram caro.
A pergunta que precisa ecoar no plenário antes da próxima votação é: o Congresso está disposto a sustentar publicamente as consequências do que aprova, ou vai, como sempre, terceirizar a conta ao produtor e empurrar o resto para o prato do brasileiro? Assim como sabemos a resposta, sabemos também que só há um mecanismo que pode mudar tudo: o poder do voto, e que tenhamos um dia, mais Brasil, e menos, mas muito menos, Brasília!
Outra questão importante e uma a pergunta que merece resposta é menos óbvia do que parece é: o Brasil está vendendo para a China, ou está entregando para a China?
Quando a China controla o terminal de onde sai sua soja produtor, os vagões que a transportam e a empresa que a negocia, ela tem influência direta sobre o preço FOB que você recebe, mesmo que você nunca perceba. Quem controla a infraestrutura de escoamento define, na prática, qual é o custo de base do produtor. E quem define o custo de base tem poder sobre a margem.
Vale destacar também que a margem da soja e da agricultura em geral está cada vez mais incerta e volátil, especialmente com as turbulências geopolíticas que se somam aos desafios operacionais do campo.
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