Durante anos, comparar o Brasil e o Paraguai parecia quase uma conta de guardanapo. A diferença tributária era fácil de explicar, mas isso mudou!
O Brasil está substituindo uma arquitetura tributária fragmentada por um IVA dual. O Paraguai mantém uma estrutura muito mais curta, mas também digitaliza a fiscalização.
- A diferença tributária era fácil de explicar. Agora ficou mais interessante
- O Brasil está tentando virar IVA. O Paraguai já opera um IVA
- O mapa tributário que realmente importa
- O Simples deixou de ser apenas um regime tributário. virou decisão de cadeia
- O crédito fiscal pode valer mais do que a alíquota
- A eleição de 2026 entrou no modelo tributário
- O Paraguai aposta em estabilidade de taxa e fiscalização maior
- A pergunta deixou de ser “quanto imposto eu pago?”
- Sobre o autor
PERGUNTA CENTRAL: Se o Brasil reduzir a cumulatividade, o crédito preso e o custo de conformidade, quanto da vantagem tributária do Paraguai permanece intacta?
A diferença tributária era fácil de explicar. Agora ficou mais interessante
Durante anos, comparar o Brasil e o Paraguai parecia quase uma conta de guardanapo. No Paraguai, o IRE tem alíquota geral de 10%; o IVA trabalha com alíquota geral de 10% e de 5% em determinados casos, enquanto a Maquila cobra tributo único de 1% sobre a base definida em lei e oferece benefícios específicos.
No Brasil, a empresa convive com IRPJ, CSLL, PIS, Cofins, IPI, ICMS, ISS e com regras que variam conforme o regime e a modalidade de operação. No lucro empresarial, o IRPJ é de 15%, com adicional de 10% acima do limite legal, e a CSLL geral é de 9%. Comparar isso diretamente com os 10% paraguaios é tentador, mas insuficiente: a base de cálculo, os créditos, os dividendos, os incentivos e as exportações alteram o resultado real.
É justamente aí que 2027 pode mexer no argumento que sustentou muitos estudos sobre localização industrial. O Brasil não está simplesmente reduzindo impostos. Está redesenhando a forma como o imposto sobre o consumo circula ao longo da cadeia produtiva.
O Brasil está tentando virar IVA. O Paraguai já opera um IVA
A semelhança entre os dois sistemas aumentará. O Paraguai já liquida o IVA pela diferença entre o débito e o crédito fiscais. O Brasil caminha para uma lógica semelhante à de CBS e IBS: o IVA dual criado pela Reforma Tributária do Consumo.
Em 2026, CBS de 0,9% e IBS de 0,1% funcionam como etapa de teste e adaptação. A virada operacional começa em 2027: o PIS e a Cofins são extintos, a CBS assume seu papel no sistema, o IPI tem a alíquota reduzida a zero para a maior parte dos produtos e o IBS inicia a transição que substituirá o ICMS e o ISS gradualmente entre 2029 e 2032. Em 2033, o novo modelo entra em vigor integralmente.
A diferença estrutural persiste: o IVA paraguaio é nacional; o brasileiro nasce dividido entre a CBS federal e os IBS dos estados e municípios, com uma governança federativa mais complexa.
Se a não cumulatividade funcionar como concebida, parte do imposto acumulado na cadeia produtiva brasileira tende a perder espaço. Para uma indústria cujo business case paraguaio dependia de créditos ruins ou de custos tributários escondidos no Brasil, a conta precisará ser recalculada.
A reforma não precisa eliminar a vantagem do Paraguai. Basta reduzir o custo invisível do Brasil para forçar a empresa a refazer o business case.
O mapa tributário que realmente importa
| Tema | Brasil: 2026–2027 | Paraguai: 2026 |
| Consumo | Transição para CBS + IBS; PIS/Cofins saem em 2027 | IVA nacional: 10% geral e 5% em hipóteses específicas |
| Lucro empresarial | IRPJ 15% + adicional de 10% acima do limite; CSLL geral 9% | IRE geral 10% |
| Dividendos | Novas regras de IRRF desde 2026; análise depende do beneficiário e do valor | IDU: 8% residente; 15% não residente |
| Pequena empresa | Simples com opção de IBS/CBS dentro ou no regime regular | IRE SIMPLE e RESIMPLE |
| Exportação / indústria | Novo IVA busca desonerar exportações e investimentos, com transição | Maquila: tributo único 1% e benefícios específicos |
| Compliance | NF-e, CBS/IBS e crédito dependente de documento fiscal idôneo | IVA crédito/débito e expansão progressiva do SIFEN |
Nota: a tabela compara as arquiteturas e as alíquotas nominais selecionadas. Não representa carga efetiva de uma empresa específica.
O Simples deixou de ser apenas um regime tributário. virou decisão de cadeia
A mudança mais urgente está acontecendo agora. Em setembro de 2026, empresas do Simples Nacional precisam decidir se manterão IBS e CBS no regime do Simples ou optarão por recolher esses dois tributos pelo regime regular, mantendo os demais componentes do Simples.
Essa possibilidade dá origem ao chamado modelo híbrido. Para negócios B2B, a decisão pode ser comercial, não apenas fiscal. Quando IBS e CBS forem pagos no Simples, o crédito do cliente sujeito ao regime regular fica limitado ao montante equivalente ao tributo devido pelo fornecedor naquele regime.
Uma pequena empresa pode pagar pouco e, ainda assim, permanecer menos atraente para um cliente que valoriza o crédito. Dependendo da margem e da posição na cadeia, recolher IBS e CBS “por fora” pode aumentar a complexidade e preservar competitividade comercial.
Para quem analisa Brasil versus Paraguai, isso é novo. O fornecedor brasileiro deixa de ser apenas uma linha de preço e passa a carregar uma qualidade tributária que pode afetar o caixa do comprador.
O crédito fiscal pode valer mais do que a alíquota
Um estudo da empresa de tecnologia tributária ROIT, divulgado em 30 de agosto pela Folha de S.Paulo, estima que inconsistências cadastrais e erros na emissão de notas fiscais por pequenos e médios fornecedores poderiam travar R$ 57,4 bilhões em créditos do novo IVA no universo analisado, composto por 295 mil empresas que representam 6,5% do PIB. O estudo também estima um resíduo tributário médio de 2,69% nas compras de pequenos fornecedores.
Eu trataria esse número como um alerta, não como uma previsão oficial. É um levantamento privado. Mas o mecanismo é relevante: a apropriação do crédito depende de documento fiscal eletrônico idôneo e das condições legais. Um erro do fornecedor pode aparecer no capital de giro do cliente.
O Paraguai também condiciona o crédito de IVA à documentação fiscal e está ampliando o SIFEN. Em maio, a DNIT incluiu cerca de 3 mil contribuintes adicionais em um cronograma de faturação eletrônica que se estende até setembro de 2027. Os dois países aumentam a rastreabilidade; o Paraguai faz isso sem reconstruir toda a arquitetura de alíquotas.
A eleição de 2026 entrou no modelo tributário
É aqui que Lula e Flávio Bolsonaro se tornam relevantes para uma newsletter sobre o Paraguai, mesmo sem transformar a discussão em uma preferência eleitoral.
O programa de Lula no TSE propõe consolidar a reforma do consumo, manter a isenção da cesta básica e o cashback e assegurar tratamento tributário justo às pequenas empresas. É um cenário de continuidade, com o desafio de fazer CBS, IBS e créditos funcionarem sem criar um novo custo de transição.
Flávio Bolsonaro propõe revisar e redimensionar a reforma, reduzir o IVA projetado, reforçar a não cumulatividade, desonerar exportações e investimentos e cortar as exceções. O documento, porém, não detalha como implementar todas essas mudanças em uma reforma constitucional e legal já em andamento.
Para o Paraguai, ambos os cenários importam por motivos distintos. Se Lula mantiver a reforma e ela reduzir, de fato, a cumulatividade, a guerra fiscal e o crédito preso, o Brasil pode recuperar eficiência sem necessariamente baixar muito as alíquotas nominais. Se Flávio conseguir reduzir o IVA, as exceções e o custo de investimento, a distância tributária que hoje favorece o Paraguai pode diminuir mais rapidamente.
Nenhum resultado é automático. Reforma tributária não apaga juros, trabalho, energia, logística ou risco regulatório. Mas altera uma das variáveis mais presentes nas planilhas que justificam a produção do outro lado da fronteira.
| Cenário eleitoral | Direção tributária declarada | Leitura para projetos Brasil–Paraguai |
| Lula | Consolidar a reforma; manter progressividade, cashback e tratamento às MPMEs | Mais previsibilidade do cronograma; competitividade brasileira depende da execução dos créditos e da simplificação |
| Flávio Bolsonaro | Revisar a reforma, reduzir IVA, exceções e tributos sobre investimento/exportação | Pode estreitar a diferença tributária mais rápido, se as mudanças forem aprovadas e implementadas |
Leitura analítica, não recomendação eleitoral. As propostas são compromissos de campanha e dependem de aprovação legislativa, regulamentação e execução.
O Paraguai aposta em estabilidade de taxa e fiscalização maior
Enquanto o Brasil redesenha o sistema, o governo paraguaio tem sinalizado outra estratégia. Em 2026, mesmo diante de pressão fiscal e de propostas políticas para elevar o IVA, a IRP ou a IRE, o Ministério da Economia e a DNIT reiteraram que o Executivo não trabalha com um aumento geral de impostos.
A DNIT, ao mesmo tempo, amplia a faturação eletrônica e a rastreabilidade. A política, até aqui, parece ser aumentar a eficiência de cobrança antes de elevar as taxas centrais.
Para o investidor, essa estabilidade tem valor. A IRE de 10%, o IVA geral de 10% e o IDU de 8% para residentes e de 15% para não residentes compõem uma arquitetura mais curta. Em projetos elegíveis, Maquila e a Lei 60/90 podem alterar significativamente o TCO.
Mas a comparação precisa ser adulta: alíquota menor não garante menor custo total, assim como reforma no Brasil não garante que produzir no Brasil passará a ser mais competitivo.
A pergunta deixou de ser “quanto imposto eu pago?”
Quando uma empresa brasileira avalia o Paraguai, eu colocaria três planilhas sobre a mesa: o Brasil de 2027, com Simples, CBS, IBS e créditos; o Paraguai real, com IVA, IRE, IDU, Maquila, logística e repatriação; e um stress test político, combinando a continuidade da reforma, a revisão de alíquotas e falhas na cadeia de créditos.
O Paraguai continuará a ter uma vantagem tributária estrutural em muitos setores industriais e de exportação. Mas parte da diferença brasileira vinha não apenas da alíquota, e sim da cumulatividade, da fragmentação, da guerra fiscal e da dificuldade de transformar o imposto pago em crédito utilizável.
Se a Reforma Tributária corrigir uma parte relevante desses problemas, a conta muda. Talvez não seja suficiente para trazer a produção de volta ao Brasil, mas é suficiente para alterar onde fica a próxima linha, o próximo centro de distribuição ou o próximo CAPEX.
E é isso que considero mais importante: localização industrial não deveria ser uma decisão ideológica nem uma fotografia tributária. É uma arquitetura econômica que precisa ser reformada quando as regras mudam.
Qual premissa tributária do seu projeto Brasil–Paraguai você recalcularia primeiro para 2027?
E mudando de assunto, você sabia que nos 6 primeiros meses de 2026 o número de concessões a brasileiros no Paraguai quase alcançou o total do ano anterior? Pois é, clique aqui e saiba mais do assunto!
Sobre o autor
Gilson Antonio Milde – CEO da Agrarias Solutions, engenheiro agrônomo e consultor em expansão empresarial no Brasil, no Paraguai e na América Latina.
Se você gosta de conteúdos sobre estratégia empresarial, internacionalização de negócios e estruturas que realmente fazem sentido para crescer com segurança, acompanhe meu perfil.
Compartilho análises práticas sobre negócios, tributação e expansão internacional, sem promessas fáceis nem atalhos.
O Farmnews disponibiliza, diariamente, seus estudos de forma gratuita pelo whatsapp. Clique aqui!



