O avanço chinês nos setores estratégicos do Brasil

Bruna Forte
Farmnews

Fora do campo, o avanço chinês é mais profundo do que o debate público costuma admitir, e está concentrada em setores estratégicos do Brasil.

Energia, portos, nióbio, soja, dados e agora a dívida pública em yuan. Peça a peça, um único parceiro concentra poder sobre setores estratégicos do Brasil. E onde foi parar a tão falada “soberania”?

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O Brasil está montando, ao mesmo tempo, duas frentes de integração com a China que precisam ser lidas juntas.

A primeira é a financeira, com a emissão de títulos da dívida pública em yuan que o Tesouro Nacional já sinalizou que fará todos os anos.

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A segunda é patrimonial, com empresas e estatais chinesas que já controlam, operam ou financiam ativos centrais da economia brasileira, da transmissão de energia aos portos, da mineração de minerais críticos ao agronegócio.

Cada frente, olhada isoladamente, poderia ser administrável, porém com a soma das duas e com pouca discussão pública, e memorandos e contratos em sigilos de 100 anos, é o que este artigo quer colocar em evidência.

Junho de dois mil e vinte e seis, o ministro da Fazenda, Dario Durigan, protocolou no Banco Popular da China o pedido para o Brasil emitir seu primeiro título soberano em yuan, de até 5 bilhões de renminbi, algo em torno de 735 milhões de dólares.

Esse mês, o Tesouro anunciou que a emissão passará a ser anual, com dois objetivos declarados: elevar a fatia da dívida em moeda estrangeira de 3,8% para 7% e construir uma curva de referência que barateie a captação de empresas brasileiras no mercado chinês.

O custo é atraente, entre 1,7% e 2% ao ano, menos da metade do que o país paga em dólar, porém a contrapartida é submeter essa dívida à lei chinesa e à arbitragem em Pequim, além de uma lei de imunidade soberana que, desde 2024, permite à China executar ativos comerciais de Estados estrangeiros no seu território.

E essa curva soberana não nasce sozinha, porque ela se apoia numa oferta de crédito chinês que já chegou ao produtor rural. Fornecedores de insumos vendem a prazo de 90 a 180 dias, com o risco de calote coberto pela Sinosure, a seguradora estatal de crédito à exportação da China, em condições mais baratas do que os 14% ao ano do Plano Safra, tema que eu já abordei em outro artigo aqui na Farmnews.

Bancos chineses licenciados no país, como o China Construction Bank Brasil e o Bank of China Brasil, já operam mesas de crédito rural, a trading estatal COFCO, que responde por mais de 30% da soja brasileira exportada, rolou mais de 1 bilhão de dólares em linhas de financiamento nos últimos meses. Do produtor ao Tesouro, forma-se assim uma escada de crédito, onde cada degrau barateia o seguinte.

O risco do Agro

Sabemos que o nosso risco está na escalada de acumulação de papéis numa mesma origem. A China é, ao mesmo tempo, a maior compradora da safra brasileira, uma das principais fornecedoras de insumos, uma credora cada vez maior e, pela via do seguro e do cadastro bancário, uma coletora de dados sobre quem produz, o quê, e em que volume.

Você já parou pra pensar o que pode se extrair de dados estratégicos nesse ciclo de 360º?

A isso se soma o controle chinês sobre elos sensíveis da cadeia, como a COFCO, que pratica o modelo de integração vertical completa, a CITIC que adquiriu, por 1,1 bilhão de dólares, o germoplasma de milho que era da Dow, hoje reunido na LP Sementes, além do mecanismo das cotas de importação de carne bovina, onde o volume que excede o limite anual estabelecido, sofre uma sobretaxa de salvaguarda de 55%.

Dentre outros riscos, demonstra-se na prática como a mesma interdependência que abre mercado pode virar instrumento de pressão.

O mapa de risco que vai muito além do agro

Fora do campo, o avanço chinês é mais profundo do que o debate público costuma admitir, e está concentrada em setores estratégicos.

Na energia elétrica, três estatais centrais já são protagonistas, a State Grid que controla a CPFL Energia, uma das maiores distribuidoras do país, e detém trechos da transmissão de Belo Monte, incluindo um bipolo inteiro. A China Three Gorges comprou a antiga Duke Energy Brasil e as hidrelétricas de Jupiá e Ilha Solteira, e tem influência indireta sobre a EDP Brasil.

Há ainda tratativas da CGN no setor nuclear, área de monopólio da União, que seriam de materialidade crítica caso avancem essas negociações.

No petróleo, a presença é grande, porém sempre minoritária e sem operação direta. Sinopec, CNPC, CNOOC e Sinochem detêm fatias de campos do pré-sal e de ativos como Repsol Brasil, Petrogal e Peregrino, e o China Development Bank financiou a Petrobras em dois empréstimos de 10 bilhões de dólares atrelados a petróleo.

Na mineração, o quadro é mais agudo, a CMOC controla 100% do nióbio e do fosfato que pertenciam à Anglo American, e um consórcio de estatais chinesas detém 15% da CBMM, a gigante brasileira do nióbio. Como o Brasil concentra a maior parte da oferta mundial desse mineral, trata-se de um ativo estratégico global sob influência crescente da China.

Nos portos, a China Merchants controla 90% do TCP, o terminal de contêineres de Paranaguá, e negocia 70% de um terminal no Porto do Açu.

No setor automotivo, BYD e GWM assumiram as antigas fábricas da Ford, na Bahia, e da Mercedes, em São Paulo, ancorando a indústria de veículos elétricos e a cadeia de baterias e lítio.

Na economia digital e na infraestrutura crítica, a Didi controla a 99, a China Unicom implantou um cabo submarino em Fortaleza, a ByteDance construiu um data center no Pecém, e a Huawei e ZTE fornecem redes de telecomunicações.

No sistema financeiro, o China Construction Bank comprou 72% do antigo BicBanco, e o ICBC e Bank of China operam por subsidiárias no país. Até na saúde existe vínculo tecnológico, pela parceria entre a Sinovac e o Butantan que produziram a CoronaVac, sem contar o Instituto Confúcio que está desde os anos 2000 dentro das Universidades Federais.

É importante ressaltar que as “empresas privadas chinesas”, estão sujeitas à forte supervisão regulatória e política do Partido Comunista, abrigando células internas do partido em suas corporações, que existem para alinhar diretrizes corporativas aos objetivos sociais do governo.

Relação comercial não é monopólio comercial

Relações comerciais entre nações são essenciais, desde que sejam obviamente rentáveis e suas práticas atendam todos os princípios éticos e de transparência.

Porém, o que há tempos eu alerto aqui, é que quando a mesma origem geopolítica aparece como compradora, fornecedora, credora, operadora de infraestrutura e detentora de dados, ao mesmo tempo e em vários setores estratégicos, o País deixa de ter uma relação comercial diversificada e passa a ter uma dependência concentrada. Onde o resultado é a perda gradual de margem de manobra, o ponto em que dizer não a Pequim, custará muito caro.

Os ativos envolvidos tornam o alerta concreto, já que energia, infraestrutura, terras raras, conectividade, germoplasmas e commodities, são justamente os setores estratégicos em que qualquer país trata o capital estrangeiro com triagem, cláusulas de segurança e limites por precaução.

A entrada do financiamento soberano em yuan acrescenta mais uma camada a essa exposição, porque cria o incentivo para que empresas de setores concentrados captem também na moeda de quem já as controla ou compra, não operando com a moeda global, o dólar.

O Brasil não deve fechar suas portas para investimentos internacionais que tragam capital, emprego e tecnologia. Mas por outro lado, um governo não pode simplesmente escalar negociações que não tenham uma estratégia nacional de médio a longo prazo que as acompanhe, e acima de tudo, que essas negociações estejam sob sigilos do brasileiro.

Quando me deparo com esse cenário, me questiono: Após 526 anos de independência conquistada, será que o Brasil caminha para o status de uma “sino-colônia” em pleno século XXI?

E por falar em avanço chinês, o Farmnews também destacou que, quando o mundo entra em turbulência, o Brasil descobre, quase sempre tarde, que estava sentado em cima de um ativo militar e tratava aquilo como commodity.

Outra questão importante e uma a pergunta que merece resposta é menos óbvia do que parece é: o Brasil está vendendo para a China, ou está entregando para a China?

Quando a China controla o terminal de onde sai sua soja produtor, os vagões que a transportam e a empresa que a negocia, ela tem influência direta sobre o preço FOB que você recebe, mesmo que você nunca perceba. Quem controla a infraestrutura de escoamento define, na prática, qual é o custo de base do produtor. E quem define o custo de base tem poder sobre a margem.

Vale destacar também que a margem da soja e da agricultura em geral está cada vez mais incerta e volátil, especialmente com as turbulências geopolíticas que se somam aos desafios operacionais do campo.

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Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público.Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios.Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto.Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade.Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro.Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.