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Da Revolução Verde à Revolução Digital: o agro precisa crescer sem deixar produtores para trás!

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O agro brasileiro não enfrenta falta de inovação, mas o desafio de transformar inovação em competitividade ampla. Não basta inventar tecnologia, é preciso distribuí-la com inteligência econômica.

A transformação iniciada nos anos 1970 foi decisiva para retirar o Brasil de uma posição de dependência alimentar e colocá-lo entre as maiores potências agrícolas do planeta. Foi uma virada histórica, construída com pesquisa, crédito rural, expansão produtiva, mecanização e ganho de escala. Mas, como acontece em muitos ciclos acelerados de modernização, nem todos avançaram no mesmo ritmo.

Parte expressiva dos produtores ficou distante do acesso pleno ao crédito, à assistência técnica, à tecnologia e à capacidade de competir em igualdade de condições. O país ganhou produtividade. Porém, em muitos casos, perdeu equilíbrio na distribuição das oportunidades dentro do campo.

Esse ponto precisa ser compreendido sem paixões ideológicas. Não se trata de criticar a modernização agrícola brasileira, que foi essencial e fantástica para o nosso desenvolvimento nacional. Trata-se de reconhecer que produtividade e inclusão precisam caminhar juntas. Quando isso não acontece, surgem bolsões de fragilidade econômica, dependência estrutural e tensões sociais. E esse é um tema bem profundo que irei abordar no meu próximo artigo.

Cinco décadas depois, o Brasil vive uma nova encruzilhada histórica.

Se antes a vantagem competitiva estava no trator, no calcário, na genética e na mecanização, agora ela está nos dados, na conectividade, na inteligência artificial, na agricultura de precisão e na gestão integrada. Mudaram as ferramentas. A pergunta central, porém, continua a mesma: quem conseguirá acessar o próximo salto de produtividade?

O agro moderno e o agro real

O Brasil possui um dos setores agropecuários mais eficientes do mundo. Lidera cadeias estratégicas, bate recordes sucessivos de produção e exportação e tornou-se referência tropical em tecnologia aplicada ao campo. Mas existe uma diferença entre o agro exibido nas feiras e o agro vivido na porteira.

Enquanto grandes grupos operam com telemetria, softwares de gestão, hedge estruturado, drones, imagens de satélite e planejamento financeiro sofisticado, milhares de produtores ainda enfrentam dificuldades básicas de conectividade, sucessão familiar, acesso a capital e assistência técnica contínua. Essa dualidade define boa parte do agro brasileiro atual: excelência global no topo e gargalos estruturais na base.

A desigualdade tecnológica do presente

Muito se fala da revolução digital no campo, e ela é real. O problema é que sua velocidade não é uniforme.

  • Grandes propriedades tendem a adotar tecnologia primeiro, possuem escala para diluir custos, equipes para operar sistemas complexos e capacidade financeira para testar, corrigir e expandir soluções.
  • Médios produtores normalmente inovam de forma seletiva. Buscam ferramentas de retorno rápido, ganho operacional e redução de desperdícios.
  • Pequenos produtores dependem, em muitos casos, de cooperativas, programas públicos, revendas parceiras, crédito direcionado e soluções simplificadas para acessar inovação.

Ou seja, a tecnologia avança, mas não chega a todos no mesmo tempo, no mesmo custo e na mesma intensidade.

O novo insumo estratégico: internet rural

Na Revolução Verde, o insumo crítico era o pacote produtivo. Em 2026, um dos novos insumos estratégicos atende por outro nome: conectividade. Sem internet confiável, sensores não transmitem, máquinas perdem eficiência, plataformas não integram dados e decisões continuam sendo tomadas no improviso. A exclusão digital tornou-se uma nova forma de exclusão produtiva. O produtor sem conexão adequada não disputa apenas em desvantagem tecnológica. Disputa em desvantagem econômica.

O risco de repetir o passado

O Brasil não pode cometer novamente o erro de celebrar apenas os recordes agregados e ignorar quem está ficando para trás. Um agro forte precisa, sim, de grandes grupos eficientes e competitivos globalmente. Mas também precisa de médios produtores sólidos e de pequenos produtores economicamente viáveis, produtivos e integrados ao mercado.

Quando a inovação se concentra demais, o país cresce em volume, mas perde densidade econômica, equilíbrio regional, sucessão no campo e resiliência social, em algum momento, essa conta retorna.

O que precisa ser feito

Se o Brasil quiser transformar a nova revolução tecnológica em desenvolvimento duradouro, alguns pilares serão decisivos:

  • Democratizar crédito produtivo;
  • Expandir conectividade rural de qualidade;
  • Fortalecer assistência técnica moderna;
  • Simplificar soluções digitais para propriedades menores;
  • Estimular cooperativismo tecnológico;
  • Criar modelos rentáveis de inovação para médios e pequenos produtores.

Não basta inventar tecnologia, é preciso distribuí-la com inteligência econômica.

A grande decisão desta década

O agro brasileiro não enfrenta falta de inovação. Enfrenta o desafio de transformar inovação em competitividade ampla. Ontem, a vantagem estava nas máquinas. Hoje, está nos dados.

Se o próximo salto tecnológico beneficiar apenas quem já é forte, repetiremos um velho padrão histórico. Mas, se alcançar toda a base produtiva, o Brasil poderá combinar produtividade, renda, estabilidade no campo e protagonismo global.

A verdadeira liderança agrícola do século XXI não será apenas produzir mais. Será fortalecer todos os protagonistas da cadeia, reconhecendo suas diferentes escalas, realidades e contribuições. Porque a união do agro, em toda a sua diversidade, reverbera muito mais a nossa força.

Saiba também que os alertas do PRODES passaram a pesar na liberação do crédito rural para o produtor. E isso muda tudo! Em abril de 2026, os alertas do PRODES (Projeto de Monitoramento do Desmatamento na Amazônia Legal por Satélite, hoje integrado ao Programa BiomasBR, que cobre todos os biomas) passaram a pesar na liberação do crédito rural. Para o produtor, isso muda tudo: antes de pedir financiamento, será preciso provar que a fazenda está ambientalmente regular

E mudando de assunto, temos ressaltado que sistemas produtivos eficientes e produtivos podem muitas vezes não ser lucrativos. Isso mostra que produtividade alta, sozinha, não garante resultado econômico positivo.

Os custos de produção estão cada vez mais incertos, voláteis e em alta, assim como os preços dos grãos. Estar exposto sem uma gestão de risco e estratégias de proteção, em um cenário de margem cada vez mais apertada é algo que tem se tornado proibitivo.

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Bruna Forte
Bruna Forte
Atuo há 25 anos no mercado corporativo em projetos e consultorias que envolvem tecnologia, ESG, marketing e inovação, trilhei e consolidei uma trajetória em multinacionais de tecnologia atuando estrategicamente nos segmentos da indústria e produção, cadeias produtivas do agro e setor público.Sou especialista em estratégias sustentáveis e de inovação, com o foco na Nova Economia Verde Positiva, liderando projetos que integram a jornada da transformação ESG, nos processos das empresas, impulsionando a competitividade, comunicação assertiva, educação e promovendo a gestão contínua das melhores práticas nos ambientes de negócios.Tenho expertise na estruturação de novos negócios e transformação organizacional, desenvolvendo diagnósticos, diretrizes estratégicas, políticas corporativas e gestão humanizada de equipes, apoiando empresas na implementação de estratégias corporativas e métricas de impacto.Estabeleço articulações e parcerias público-privadas, com o fim de criar conexões que facilitem empresas desenvolver soluções socioambientais inovadoras de impacto na sociedade.Minha experiência no mercado corporativo e ESG pavimentou minha atuação em outras soluções de negócios, em especial no desenvolvimento de projetos de comunicação visual corporativa e industrial com foco no ecodesing, abordando a sustentabilidade para criar experiências de clientes e estratégias de branding para o mercado do Agro.Acredito que toda estrutura de comunicação assertiva e a educação transformadora, são ferramentas poderosas para gerar impacto positivo na sociedade e na criação de pontes entre o campo e a cidade.

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